No triunfo, a pequenez de Lula

Um editorial do Estadão deu nome à ressaca de domingo: “Os péssimos sinais do discurso da vitória”. Na linha fina, o jornal resumiu a noite: em vez de falar ao país como chefe de Estado, Lula foi ao palanque atacar o adversário, desancar a imprensa profissional e anunciar que governará pelo celular, e isso logo depois de prometer governar para todos.
O título é severo, mas não espanta ninguém. Espanto mesmo seria se, depois de mais de quatro décadas de vida pública, Lula subisse ao palco sem a mania de grandeza que sempre o acompanhou.
A noite da vitória costuma ser o momento em que o candidato despe o figurino de campanha e veste o de estadista. Espera-se dele magnanimidade, um gesto para o derrotado e o chamado à união nacional, ainda mais depois de uma disputa que rachou o país ao meio.
O que o Brasil assistiu foi o oposto: a soberba de quem confunde o resultado das urnas com uma coroação.
Flávio Bolsonaro foi chamado de “representante genuíno do milicianismo”, e Lula ainda disse que no adversário não haveria “uma célula de humanismo”. No mesmo discurso, com a naturalidade de quem não escuta a própria voz, o reeleito afirmou que, vencida a eleição, não tinha mais adversários e governaria para 215 milhões de brasileiros.
A promessa durou poucos minutos. Ele encerrou a fala saudando os “soldados” do “exército da democracia”, e todo exército pressupõe um inimigo. Nessa retórica de trincheira, o inimigo é a metade do país que preferiu outro nome.
A imprensa também entrou na mira. Lula avisou que passará a falar diretamente com a população pelo celular, “muitas vezes por dia”, e que não aceitará ser interpretado por “jornalista com má-fé”.
Nasce assim o presidente-influenciador, que prefere a tela sem contraditório ao incômodo das perguntas. O jornalismo profissional irrita os governantes justamente porque fiscaliza o poder, e é por isso que continuará a fazê-lo.
Um país não se governa com stories e transmissões ao vivo. Governa-se com as instituições, com o Congresso e com a paciência de ouvir quem discorda.
A aritmética das urnas pedia outro tom. Lula somou 64,2 milhões de votos, contra 59,8 milhões de Flávio, ou 51,75% a 48,25% dos válidos, uma vantagem de apenas três pontos e meio. Quase metade do eleitorado escolheu outro caminho, e esses brasileiros não perderam a cidadania porque o candidato deles perdeu a eleição.
Nada nesse placar autoriza a prepotência de quem fala como se tivesse vencido por aclamação.
A reeleição, aliás, já é uma proeza por si só. Lula conquistou o quarto mandato depois de fazer o pior governo de sua trajetória, e o veredito não é de opositor: as pesquisas registraram, ao longo dos quatro anos, desaprovação consistentemente maior que a aprovação.
Superado no primeiro turno, o petista virou o jogo com uma campanha de terrorismo eleitoral como poucas vezes se viu na República. Segundo o roteiro do medo, o adversário acabaria com o Bolsa Família e com o Pé-de-Meia, congelaria o salário mínimo, fecharia a Farmácia Popular, privatizaria o SUS e ressuscitaria a escala 6×1. Sobrou até para o Pix.
Flávio passou a reta final desmentindo uma calúnia atrás da outra, enquanto o governo, a seis dias da votação, começava a pagar o Bolsa Família reajustado. A mentira repetida cumpriu seu papel e rendeu votos.
Com o quarto mandato no bolso, Lula será o primeiro brasileiro eleito quatro vezes presidente pelo voto direto. Ao fim dele, terá governado por 16 anos, menos apenas que Getúlio Vargas.
Para quem nunca primou pela modéstia, a biografia é um convite ao autoendeusamento: a tentação de se ver como figura histórica acima de cobranças, dispensada das tarefas mundanas de governar, negociar e prestar contas. A presunção de domingo pode ter sido só o ensaio.
A realidade, porém, não lê biografias. As contas públicas exigem um ajuste duro que o governo empurra com a barriga até as raias da negação, e o próprio Planalto já admite que, a partir de 2028, faltará dinheiro para as despesas discricionárias, com risco de a máquina pública parar.
O endividamento de famílias e empresas não dá trégua, a Selic de 13,75% ao ano sufoca o crescimento e a segurança pública virou motivo de angústia em todo o território. As reformas urgentes dependem de um Congresso que sai das urnas de outubro mais conservador, na Câmara e no Senado, e francamente hostil ao Planalto.
Lula ainda terá ao menos quatro cadeiras do Supremo para preencher, e caberá ao Senado impedir que elas virem prêmio de consolação da companheirada.
Nenhum desses problemas se resolve com arrogância de palanque nem com vídeos disparados pelo celular. E, desta vez, não haverá herança maldita para servir de álibi, porque Lula recebe o país das mãos de Lula.
A dívida bruta de R$ 11,1 trilhões chega à mesa do presidente com um único nome no remetente: o dele.



