Opinião

Gilmar, o César da República

Existe um Brasil oficial, o das capas de jornal, dos plenários e das togas, e existe um Brasil de bastidor, que raramente alguém de dentro tem a coragem — ou a habilidade literária — de descrever sem medo das consequências.

Esse segundo Brasil acaba de ganhar um retrato de corpo inteiro, feito não por um adversário político nem por um militante de ocasião, mas por alguém que atravessou as duas margens do poder e sabe exatamente do que fala.

Samer Agi é advogado, escritor, palestrante e uma das maiores personalidades digitais do país, com mais de dois milhões e meio de seguidores no Instagram.

Mas o que dá peso ao que ele escreveu não é o alcance das redes — é a biografia. Formado em Direito pela Universidade Federal de Goiás, aprovado em concursos públicos de altíssima concorrência, foi delegado da Polícia Civil no Estado e, ainda aos 25 anos, tornou-se juiz de direito substituto do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios.

Exerceu a função de juiz distrital e atuou como instrutor no Superior Tribunal de Justiça — uma carreira notável, para qualquer padrão — antes de pedir exoneração da magistratura e trilhar, na vida privada, uma trajetória de sucesso como empreendedor, cofundando um cursinho preparatório para concursos e fundando uma plataforma própria de cursos.

Não é candidato a nada, não defende partido, não milita por bandeira nenhuma. É um observador privilegiado, que viu os mecanismos do poder por dentro antes de descrevê-los por fora — e o que ele descreveu, em um comentário publicado recentemente em suas redes, é simplesmente a explicação mais lúcida já feita sobre quem, de fato, manda em Brasília.

Vale reproduzir o relato quase por inteiro, na íntegra de suas próprias palavras, porque cada frase carrega um detalhe que não pode se perder.

“Quando eu cheguei a Brasília como juiz, eu me assustei. Na faculdade, eu fiz Federal de Goiás, as pessoas prestavam concurso fugindo das dificuldades da advocacia. Um advogado jovem e brilhante ganharia 8, 10 mil reais por mês.”

O espanto, conta ele, veio do contraste. “Mas em Brasília, quando eu cheguei, eu tinha 25 anos, eu conheci advogados de 25, 26, 28 anos que faziam fortunas. Gente que tinha relógios que valiam carros, carros que valiam casas e casas que eram fazendas em pleno Lago Sul.”

Não era apenas dinheiro — era origem. “E eram vários jovens inteligentes e especiais. Mas o que eles tinham de mais especial era uma proximidade com o poder. Eram filhos, sobrinhos, netos de ministros de tribunais.”

Uma advocacia que Agi define com precisão cirúrgica: “era uma advocacia com contornos de lobby e um lobby com vestes de aristocracia. A maioria com uma boa formação, mestrado preferencialmente fora do país, uma dissertação que virou livro que ninguém leu, mas que serviu pro lançamento lotado de autoridades.”

A partir dessa linhagem de sobrenomes, Agi chega ao núcleo do seu argumento. “Em Brasília, você descobre que 50 pessoas mandam no Direito no Brasil e que Direito e política são praticamente a mesma coisa. Existe uma hierarquia e existe uma aristocracia.”

E, no ápice desse organograma, um único nome. “Só que em toda a aristocracia jurídica brasileira, ninguém manda mais do que o ministro Gilmar Mendes. Não há um órgão em que ele não tenha um indicado seu, um pupilo, alguém que o ‘professor Gilmar’, como o chamam, não tenha escolhido.”

E então a frase que resume tudo, cunhada com a economia de quem sabe que uma boa metáfora vale mais que um parágrafo inteiro de indignação: “Gilmar é César.”

Na imprensa, prossegue o relato, “ele tem seus jornalistas nos principais veículos de comunicação. No governo, ele tem os seus fiéis. No Ministério Público não é diferente; o mais famoso deles se chama Paulo Gustavo Gonet.”

O comentário não fica na acusação genérica — desce ao preço exato das coisas, e é aqui que o texto ganha tom de confidência entre poucos. “No mundo jurídico brasiliense existem erros, mas todo erro revelado… O parecer de um ex-ministro do STJ custa 500 mil. Ele não é referência na matéria, mas tem história, influência e uma profunda amizade com o relator do caso. E isso custa caro.”

Entrar no jogo é opcional — ficar de fora é que sai caro. “Você paga se quiser, ninguém é obrigado. Mas a outra parte contratou outro ex-ministro ou seu filho, então, pra ter chance, você investe os 500 mil — não por genialidade jurídica, mas por paridade de armas.”

E, ainda assim, tudo permanece dentro da lei, ao menos no papel. “Mas tudo é velado. Todo mundo emite nota, é um serviço advocatício. Então, apesar de ter cara de errado, cheiro de errado, gosto de errado, não dá pra falar que é errado porque ninguém pode ser punido pelo sobrenome que tem.”

É Machado de Assis, involuntariamente, quem melhor descreveu esse Brasil antes de Agi nascer. “Mas essa composição típica da ‘Teoria do Medalhão’ de Machado de Assis sofreu uma ruptura há dez anos. Porque naquele momento, entre os notáveis, entre os romanos, surgiu um bárbaro: surgiu Alexandre de Moraes.”

A chegada do bárbaro quebrou a coreografia secular de Brasília. “O modo de proceder do ministro Alexandre significou uma ruptura no estilo brasiliense. Não havia mais a política, mas as pauladas; uma agressividade implacável contra os seus desafetos.”

O diagnóstico, segundo Agi, é consenso na própria capital. “Todos em Brasília concordam que ele ultrapassa os limites do razoável pra se vingar. Mas isso tem um custo: custa pontes.” E o preço já foi pago. “Moraes queimou todas as pontes com a direita brasileira. Agora não há caminho de volta.”

A conta futura, adverte o relato, pode ser ainda mais alta. “Em um momento como esses, a interlocução com a direita poderia se mostrar vital. Só há uma forma de Moraes continuar ministro até a sua aposentadoria: se até lá a direita não voltar ao poder. E ele sabe disso. Mas será que nos próximos 20 anos isso não acontecerá?”

É na virada final que Agi entrega sua tirada mais certeira — a que separa quem apenas assiste ao noticiário de quem sabe como o roteiro é escrito nos bastidores.

“No momento de fragilidade atual, quem sustenta Moraes não é Moraes. Isso é um engano. Quem sustenta Moraes é Gilmar. Porque Gilmar é diferente.”

Um interditou o próprio futuro; o outro segue negociando com todos os lados. “O ‘professor’ constrói pontes com Lula e construirá pontes com Flávio se este vencer. Mais: se o filho do ex-presidente se tornar presidente, no dia seguinte alguém terá que ir a Gilmar pedir sua benção. Não se governa sem a benção do decano do tribunal.”

E o comentário fecha com um número que soa quase a uma sentença. “Agora, 85% das menções a Moraes nas redes são negativas. A isso chamamos erosão de reputação. As pessoas querem que Moraes seja investigado, afastado e, por fim, se provados os fatos, punido. Mas Gilmar não quer. E essa é a esperança de Moraes. Se Gilmar mudar de ideia ou se o Brasil mudar de presidente, tudo muda.”

É contra esse pano de fundo — tentáculos antigos, silenciosos e bem remunerados — que o escândalo do Banco Master e as negociatas de Daniel Vorcaro com ministros do Supremo deixam de parecer exceção para parecer método.

O que choca em 2026 não é a novidade do esquema; é que, pela primeira vez, ele veio à tona.

Há décadas Brasília funciona assim, nas sombras, com pareceres de meio milhão e graças que valem mais que votos — e o país só fica sabendo quando um banqueiro erra a mão.

Alexandre de Moraes pode ser o rosto da crise institucional que o país atravessa. Mas o rosto, como todo bom império sabe, nunca é o poder.

O poder está no trono ao fundo, imperturbável, distribuindo bênçãos — e esperando, com a paciência de quem já viu bárbaros virem e irem, que este também passe.

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