Opinião

Facções criminosas: o tiro no pé do governo Lula

Na diplomacia, as palavras costumam viajar mais longe do que os aviões. Algumas aproximam países. Outras erguem muros invisíveis. E há aquelas que, pronunciadas sem a devida medida, acabam criando fantasmas onde eles simplesmente não existem.

Foi exatamente essa a impressão deixada pelo governo brasileiro ao reagir à decisão dos Estados Unidos de enquadrar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Desde o início, Brasília demonstrou desconforto com a medida, alegando possíveis consequências para instituições financeiras e empresas que, ainda que de forma involuntária, possam manter relações com estruturas utilizadas pelas facções para lavagem de dinheiro.

A preocupação jurídica pode até ser debatida. O problema é a mensagem política transmitida à opinião pública: a de um governo mais inquieto com os efeitos do combate ao crime organizado do que com o próprio avanço das organizações criminosas.

O episódio ganhou um contorno ainda mais delicado quando o chanceler Mauro Vieira levantou a hipótese de que essa designação pudesse abrir espaço para uma eventual intervenção militar americana em território brasileiro. A reação de Washington foi imediata e contundente. O Departamento de Estado classificou essa interpretação como “absurda”, esclarecendo que a legislação americana prevê consequências conhecidas e restritas: sanções financeiras, bloqueio de ativos, restrições de vistos e mecanismos destinados a dificultar a atuação e o financiamento de grupos criminosos. Nenhuma delas contempla ação militar.

Na mesma manifestação, os Estados Unidos explicaram por que decidiram endurecer sua posição: “Essas gangues brasileiras agora operam nos Estados Unidos, e nós defenderemos nosso povo contra elas.” Em seguida, veio o trecho que produziu o maior embaraço diplomático: “Alegações vagas de intervenção são frequentemente um pretexto para ajudar e cumpliciar alguns dos grupos mais violentos do mundo.”

A resposta de Washington não poderia ter sido mais constrangedora.

Não há como deixar de interpretar essa observação como uma acusação indireta à postura leniente – para dizer o mínimo – adotada pelo governo brasileiro no enfrentamento das facções criminosas.

Ao mesmo tempo, a controvérsia passou a ser explorada politicamente no debate interno sob o argumento da defesa da soberania nacional. É um discurso de evidente apelo eleitoral, mas que, neste episódio, produziu um efeito inverso ao desejado. Ao transformar uma medida de natureza jurídica e financeira numa disputa simbólica entre países, o governo acabou desviando o foco daquilo que deveria unir todos os governos: o combate às organizações criminosas.

O mais paradoxal é que PCC e Comando Vermelho deixaram de ser um problema exclusivamente brasileiro há muito tempo. Expandiram suas redes para além das nossas fronteiras, movimentam bilhões de dólares com o narcotráfico, a lavagem de dinheiro e outros crimes transnacionais, estabelecendo conexões em diversos países. É natural, portanto, que outras nações utilizem seus próprios instrumentos legais para proteger seus cidadãos e sufocar financeiramente essas estruturas que aterrorizam milhões de pessoas mundo afora.

Nesse cenário, seria esperado que o Brasil buscasse ampliar a cooperação internacional e fortalecer parcerias no enfrentamento ao crime organizado. Afinal, as facções cresceram, sofisticaram suas operações e internacionalizaram seus negócios justamente enquanto o Estado brasileiro demonstrava dificuldades (ou má vontade) para contê-las de forma eficaz.

Quanto maior a articulação entre os países, maiores as possibilidades de interromper os fluxos financeiros que sustentam essas organizações.

Ao optar por enxergar uma ameaça militar onde o próprio governo americano afirma existir apenas instrumentos jurídicos e financeiros, a diplomacia brasileira acabou produzindo um efeito inverso ao pretendido. Em vez de deslocar o debate, atraiu para si uma resposta pública que colocou o Brasil numa posição politicamente vexaminosa.

Na guerra contra o crime organizado, as fronteiras já foram derrubadas pelos próprios criminosos. Talvez seja hora de a diplomacia compreender que a cooperação internacional produz resultados mais sólidos do que fantasmas diplomáticos.

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