Não vamos desistir

Valendo-se da prerrogativa de dar a sentença definitiva e encerrar a discussão, as altas Cortes da justiça brasileira já haviam perdido o medo de proteger a bandidagem.

Agora perderam também a vergonha.

Quase todos os dias estamos ouvindo, assistindo ou lendo na imprensa alguma notícia informando sobre a anulação de processos ou sobre o trancamento de investigações, pelos mais risíveis argumentos “jurídicos”, em benefício de acusados de corrupção apanhados com a boca na botija pela Operação Lava Jato, de saudosa memória.

Para surpresa apenas dos ingênuos que chegaram a acreditar que um dia alcançariam a graça de ver figurões do mundo político e empresarial deste país puxando cadeia por surrupiar dinheiro público, vão se cumprindo todas as tenebrosas profecias que, tão logo veio à tona o escândalo do Petrolão, previram que, por mais contundentes e inquestionáveis que fossem as evidências colhidas contra os envolvidos, a impunidade, como sempre, venceria.

E, como estamos vendo, ao menos por enquanto, parece ter vencido.

Antes de jogar a toalha e deixar o Ministério Público Federal, o ex-procurador Deltan Dallagnol, que chefiou a força-tarefa da Lava Jato, rendeu-se à realidade em um duro desabafo: “É difícil descobrir a corrupção. Quando descoberta, é difícil prová-la. Provada, é difícil que o processo não seja anulado. Não anulado, demora mais de uma década e prescreve. Não prescrito, a pena é baixa e é indultada no Natal. Se sobra alguma pena e é aplicada a um poderoso, ele adoece e vai para casa.”

Mas ainda é bem pior do que isso, como atestou, não faz muito tempo, o ministro Luís Roberto Barroso, no momento fugaz em que deu a esperança de que poderia ser um paladino da correta aplicação da lei no Supremo Tribunal Federal.

Disse ele, traçando um paralelo entre as operações Mãos Limpas e Lava Jato: “Na Itália, a corrupção conquistou a impunidade. Aqui, entre nós, ela quer vingança. Quer ir atrás dos procuradores e juízes que ousaram enfrentá-la. Para que ninguém nunca mais tenha a coragem de fazê-lo. No Brasil, hoje, temos os que não querem ser punidos, o que é um sentimento humano e compreensível. Mas temos um lote muito pior, dos que não querem ficar honestos nem daqui para a frente, e que gostariam que tudo continuasse como sempre foi.”

Palavras verdadeiras, mas inócuas.

Não demorou muito para que Barroso fosse abduzido por seus colegas do STF para ficar do lado dos vilões da história.

Atentando sem o menor pudor contra a liberdade de expressão assegurada na Constituição, os ditadores togados se mostram implacáveis na perseguição a jornalistas e parlamentares que os criticam, mas dobram a espinha para livrar da cadeia os criminosos ricos e poderosos, abrindo caminho para que os meliantes possam voltar a mandar na política e até cobrar indenizações de quem os denunciou e condenou.

Sem os juízes para punir corruptos e corruptores, resta-nos as eleições.

Se ainda não conseguimos colocá-los na prisão, temos, ao menos, o poder de negar-lhes o voto e impedi-los de ganhar um mandato para voltar a saquear o Brasil.

Também é uma forma de fazer justiça com as próprias mãos.

Por ora, é melhor do que nada.

 

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4 Comentários

  1. Eles também têm as urnas eletrônicas. Eles, Butão e Bangladesh substituem a vontade popular.

  2. Perfeito Caio. A Revolução Francesa começou num momento parecido. E foi lá que foi inventaram a guilhotina, um instrumento interessante que acabou colocando ordem na casa. Essas coisas acontecem quando as pessoas não suportam mais tanta humilhação. No caso, chamada de Suprema humilhação

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