Bloco de Notas

- Trilhos para o futuro
A presença crescente de empresas chinesas nos projetos ferroviários brasileiros certamente despertará resistências de natureza geopolítica e ideológica. É compreensível. A China deixou de ser apenas uma potência comercial para se tornar um ator estratégico em praticamente todos os continentes.
Mas há uma pergunta que merece ser feita antes de qualquer preconceito: o Brasil pode se dar ao luxo de dispensar quem demonstra capacidade de investir e executar grandes obras de infraestrutura?
O ministro dos Transportes revelou que praticamente todos os projetos ferroviários da carteira do governo contam com o interesse de grupos chineses. Não se trata de uma curiosidade estatística. É um indicativo de que o Brasil voltou ao radar dos grandes investidores internacionais justamente em um setor no qual acumulamos décadas de atraso.
Enquanto aqui uma ferrovia frequentemente leva uma eternidade entre projetos, licenças, disputas judiciais e inaugurações parciais, a China transformou a construção de ferrovias em uma de suas maiores especialidades. Em poucas décadas, implantou a maior malha ferroviária de alta velocidade do planeta e desenvolveu uma impressionante capacidade de planejamento e execução.
Goste-se ou não da presença chinesa na economia mundial, eficiência continua sendo eficiência. Se vier acompanhada de investimentos, tecnologia e capacidade de entregar obras que o Brasil espera há décadas, será difícil encontrar argumentos para torcer contra.
- O arco-íris no quartel
Poucas imagens resumem tão bem os novos tempos quanto a fachada iluminada do Superior Tribunal Militar com as cores do arco-íris durante o mês do Orgulho LGBT.
A iniciativa da presidente da Corte foi apresentada como um gesto institucional em favor da diversidade. O curioso foi o contraste.
Uma instituição com mais de dois séculos de história, tradicionalmente associada à disciplina, à hierarquia e ao ambiente militar predominantemente masculino, tornou-se palco de uma das imagens mais inesperadas do mês.
A ausência dos demais ministros durante a cerimônia acabou alimentando interpretações de toda natureza. O tribunal afirma que o evento tinha caráter informal e que não houve convite oficial. Ainda assim, a fotografia permaneceu mais eloquente do que qualquer nota explicativa.
O Brasil continua sendo um país onde, vez ou outra, a realidade supera com facilidade a imaginação.
- Da química à pólvora
Quando Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva se encontraram pela primeira vez, o presidente americano chegou a dizer que havia existido uma boa “química” entre os dois. A diplomacia parecia indicar um caminho de convivência pragmática entre governos de orientações opostas.
Pouco tempo depois, vieram as críticas públicas, os desencontros e as divergências em temas internacionais.
Agora, Trump afirmou que Lula é “muito volátil” e declarou que “não poderia se importar menos” com o presidente brasileiro. Paralelamente, deixou claro que acompanha com atenção o cenário político nacional e sinalizou interesse nas eleições presidenciais de 2026.
Na política internacional, a química costuma durar pouco quando os interesses entram em colisão. O que começou com cordialidade parece caminhar, cada vez mais, para uma disputa de narrativas que promete atravessar o próximo processo eleitoral brasileiro.
- O café pede desculpas?
Durante anos, o café foi tratado como um velho conhecido de reputação duvidosa. Bastava surgir um estudo para transformá-lo novamente em vilão da saúde.
Depois vieram pesquisas mais consistentes mostrando exatamente o contrário: consumido com moderação, o café está associado à redução do risco de diversas doenças, entre elas o Alzheimer e outras enfermidades neurodegenerativas.
O roteiro lembra muito o que aconteceu com o ovo. Primeiro condenado, depois absolvido. A ciência, felizmente, tem a virtude de rever as próprias conclusões quando novas evidências aparecem.
Talvez a maior lição não seja sobre café nem sobre ovos. Seja sobre a prudência de transformar certezas científicas provisórias em verdades definitivas. Às vezes, quem muda não é o alimento. É o conhecimento.
- Quando o alarme toca para a confiança
A invasão do sistema que disparou alertas falsos da Defesa Civil em diversos estados provocou mais do que perplexidade. Ela expôs a vulnerabilidade de uma infraestrutura que deveria inspirar absoluta confiança à população.
Especialistas apontam falhas que vão desde credenciais comprometidas até a ausência de mecanismos básicos de proteção. Se isso se confirmar, o episódio servirá como alerta para toda a administração pública. Sistemas críticos exigem vigilância permanente.
É justamente em situações como essa que prosperam dúvidas, suspeitas e teorias sobre a segurança de outros sistemas eletrônicos utilizados pelo Estado. Não porque um caso prove o outro, mas porque a confiança pública é construída sobre a percepção de competência.
Quando um alarme oficial pode ser acionado por um invasor, cresce naturalmente a cobrança para que todos os sistemas críticos — inclusive os eleitorais — sejam permanentemente auditados, aperfeiçoados e protegidos.
Em democracia, transparência e segurança nunca são excessivas.
- Depois dos pais, a mãe do Pix
O Pix virou um fenômeno tão bem-sucedido que agora começa a produzir um efeito curioso: multiplicam-se os candidatos à sua paternidade.
Depois de governos reivindicando a autoria política do sistema de pagamentos instantâneos, surgiu agora quem reivindique sua maternidade.
Uma professora e empresária entrou na Justiça alegando ter concebido, anos antes do lançamento oficial do Pix, uma metodologia bastante semelhante para transferências eletrônicas instantâneas. Ela pede o reconhecimento dos direitos autorais, indenização e até o pagamento de royalties pela utilização da ideia.
O Banco Central contesta a versão, lembrando que tecnologias semelhantes já existiam no exterior e que o desenvolvimento do Pix resultou de estudos próprios. Caberá à Justiça arbitrar essa disputa.
Enquanto isso, o Pix segue fazendo aquilo que sabe fazer melhor: transferir dinheiro em segundos. Já a disputa pela certidão de nascimento promete demorar um pouco mais.
- A adega que sobreviveu aos impérios
Sob as ruas de Tbilisi, capital da Geórgia, veio à luz um dos mais extraordinários tesouros da história do vinho. Uma coleção de cerca de 30 mil garrafas, preservada por mais de dois séculos em uma adega subterrânea, revelou verdadeiras relíquias, entre elas vinhos franceses deixados pelas tropas de Napoleão Bonaparte durante a campanha contra a Rússia e exemplares que mais tarde passaram a integrar a coleção particular de Josef Stalin, curiosamente um dos filhos mais célebres daquele país.
É uma dessas descobertas em que o vinho deixa de ser apenas bebida para se transformar em testemunha da História.
Enquanto impérios surgiram e desapareceram, guerras redesenharam fronteiras e regimes políticos se sucederam, aquelas garrafas permaneceram silenciosamente protegidas da passagem do tempo.
Naquele subterrâneo de Tbilisi, o tempo não envelheceu apenas o vinho. Conservou intacta uma parte da própria História.
- Um prêmio que devolve dignidade
Entre centenas de projetos inscritos de todo o Brasil, o Catuaí Shopping Cascavel conquistou um dos principais reconhecimentos do Prêmio Abrasce com uma iniciativa que vai muito além da atividade comercial.
O Projeto Marias aproximou mulheres vítimas de violência doméstica das oportunidades de emprego criadas pelo novo empreendimento. O resultado impressiona: mais de uma centena de contratações, fruto de uma rede que reuniu Ministério Público, Judiciário, forças de segurança, instituições de ensino e iniciativa privada.
Muito se fala sobre responsabilidade social. Nem sempre ela ultrapassa os limites do discurso institucional. Neste caso, transformou-se em carteira assinada, independência financeira e recomeço para dezenas de mulheres.
Há prêmios que reconhecem boas ideias. Outros reconhecem vidas efetivamente transformadas.
- Picasso apareceu onde ninguém imaginava
A polícia francesa saiu à procura de traficantes de drogas e encontrou Pablo Picasso.
Durante uma operação na periferia de Paris, investigadores localizaram uma obra do mestre espanhol que estava desaparecida havia meses. O retrato cubista, avaliado entre 12 e 15 milhões de euros, encontrava-se na casa de uma parente de um dos suspeitos.
Não deixa de ser curioso que algumas das maiores descobertas policiais ocorram justamente quando se procura outra coisa. A História registra inúmeros casos semelhantes.
No fim das contas, entre drogas, dinheiro e artigos de luxo, o maior tesouro daquela operação era uma tela que atravessou o século XX para reaparecer no lugar mais improvável.
- Quando o humor não precisava pedir licença
Miguel Falabella talvez tenha resumido uma sensação compartilhada por boa parte do público ao afirmar que o antológico seriado “Sai de Baixo”dificilmente existiria hoje.
Não porque Caco Antibes estivesse certo ao dizer que tinha “horror a pobre”, nem porque o famoso “Cala a boca, Magda!” devesse servir de modelo para qualquer comportamento. Justamente o contrário.
A graça do personagem estava em ridicularizar preconceitos reais por meio do exagero, expondo uma caricatura da elite brasileira.
Falabella observa que as redes sociais transformaram qualquer piada em potencial julgamento público, tornando a televisão muito mais cautelosa na produção de humor.
Toda época estabelece seus próprios limites para a comédia. Mas talvez o mundo tenha ficado um pouco mais sisudo quando o humor passou a precisar pedir explicações antes mesmo de provocar o primeiro sorriso.



