Quando nada se perde de verdade

Há um detalhe que costuma escapar ao brasileiro apressado entre os corredores de um supermercado: o lixo que ele descarta ali, distraidamente, raramente vira matéria de reflexão.
No Festval — rede nascida em Cascavel, cidade que segue sediando seis de suas lojas, e consolidada com ampla presença em Curitiba e Região Metropolitana, onde já opera 31 unidades —, esse gesto cotidiano deixou de ser periférico para se tornar política.
E os números, vistos em contraste com o cenário nacional, revelam por que vale a pena parar — ainda que só por um parágrafo — diante de uma gôndola.
O Brasil produziu, em 2023, quase 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos. Desse volume monumental, apenas 8,3% encontraram o caminho da reciclagem — o restante, a esmagadora maioria, seguiu o destino mais previsível e mais trágico: o aterro sanitário, quando não algo pior.
Os dados, levantados pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente, expõem não exatamente uma falha pontual, mas um traço estrutural: o país ainda não aprendeu a tratar o próprio descarte como recurso, e insiste em enterrar aquilo que poderia transformar.
É nesse contexto que o trabalho do Festval ganha relevo e, frise-se, não como exceção isolada, mas como sistema.
Somente em 2025, a rede destinou cerca de 2,7 mil toneladas de resíduos orgânicos para compostagem, retirando-as do circuito dos aterros e devolvendo-as ao solo sob a forma de adubo, parte dele distribuído aos próprios clientes.
É o tipo de ciclo que poucas empresas brasileiras conseguem sustentar com regularidade: não um gesto pontual de marketing verde, mas uma engrenagem que se repete, mês após mês, loja após loja.
O programa Festval Recicla é a face mais visível dessa engrenagem.
Presente em oito unidades de Curitiba — Kennedy, Centro Cívico, Linha Verde, Tingüi, Barigüi, Juvevê, Palazzo Batel e Alto da XV —, o projeto oferece estações de coleta que recebem desde vidro e lixo eletrônico até lâmpadas e embalagens recicláveis.
E o que poderia ser privilégio de algumas lojas-modelo se estende, em alguma medida, a toda a rede: cada loja do Festval conta com algum tipo de estrutura voltada à destinação correta de resíduos, ajustada à realidade de cada espaço.
Há, ainda, um capítulo dedicado à economia circular propriamente dita.
As chamadas Retorna Machines — equipamentos instalados em algumas lojas que recebem latas, plásticos, vidro e embalagens longa vida — convertem o gesto de reciclar em benefício direto ao consumidor, fechando um círculo que, em tantas outras experiências brasileiras, permanece aberto e sem incentivo.
O resultado prático: mais de 17 mil embalagens são recolhidas mensalmente pelas estruturas de logística reversa da rede, um volume que não se sustenta sem adesão real do público.
“Outro eixo importante da estratégia de sustentabilidade está na gestão dos resíduos gerados pelas próprias operações. Os materiais recicláveis recebem destinação adequada e os resíduos orgânicos passam por processos de compostagem, transformando-se em adubo utilizado em iniciativas da rede e, também, distribuídos aos clientes”, explica Ana Paula Beal, gerente da Qualidade do Festval.
Em sua fala, esse compromisso aparece não como apêndice institucional, mas como tecido constitutivo da operação: “A sustentabilidade faz parte do DNA do Festval e está presente em diferentes áreas da operação. Nosso objetivo é oferecer soluções práticas para que clientes e colaboradores possam participar desse processo de forma simples e consciente.”
Há, nessa visão, uma intuição que muita política pública ainda não absorveu: a de que mudança de hábito não se decreta, se constrói na rotina. “O supermercado faz parte do cotidiano de milhares de famílias. Ao disponibilizar estruturas de coleta e incentivar práticas de reciclagem, conseguimos aproximar essa causa da vida das pessoas”, completa Ana Paula.
É exatamente aí que reside a diferença entre discurso ambiental e prática ambiental: o primeiro cabe em um slogan de junho, mês em que se celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente; o segundo exige planejamento, investimento e — sobretudo — continuidade.
Convém registrar: nenhuma empresa resolve, isoladamente, o déficit estrutural de um país que recicla menos de um décimo do que produz. Mas há uma diferença essencial entre esperar a solução do Estado e construir, na prática cotidiana, um modelo replicável.
O Festval, que já planeja duas novas unidades em Curitiba para 2026 — nos bairros Pilarzinho e Moinho Bacacheri —, prova que crescer em lojas e crescer em responsabilidade não são caminhos distintos. São o mesmo caminho.







