Se não vier pelo voto, vem pelo tapetão

Toda reta final de campanha tem seu cheiro de pólvora, mas a desta semana exala outra coisa: o odor acre do desespero.
Basta ligar o rádio, folhear um jornal ou abrir o noticiário de boa parte dos grandes grupos de comunicação do país para perceber que a disputa deixou de ser debate e virou bombardeio.
O alvo é um só, Flávio Bolsonaro, e a munição é farta.
São acusações sem prova, ilações levianas, manchetes que condenam antes de qualquer julgamento e uma enxurrada de desinformação travestida de jornalismo.
Desde a redemocratização, dificilmente se viu artilharia tão pesada contra um candidato às vésperas do voto.
A razão da fúria cabe numa planilha. Flávio encerrou o primeiro turno à frente, com 47% contra 45% de Lula. Desde então, as pesquisas insistem no mesmo desenho: o senador numericamente na dianteira, ora em empate técnico dentro da margem de erro, ora com folga mais visível.
O Gerp, um dos institutos que mais se aproximaram do resultado das urnas no primeiro turno, divulgou nesta quarta-feira (21) uma nova rodada com Flávio em 53% dos votos válidos, contra 47% de Lula. Na anterior, o placar era de 52% a 48%. Considerados todos os entrevistados, o senador aparece com 50% e o petista com 45%.
É o retrato do chamado antipetismo de chegada, aquele que engorda justamente quando o eleitor se aproxima da cabine.
Diante desse quadro, o noticiário passou a registrar uma movimentação nada discreta nos bastidores de Brasília. Há encontros reservados entre integrantes do governo, aliados no Congresso e ministros do Supremo Tribunal Federal, jantares em residências de magistrados e conversas longe dos holofotes.
Em paralelo, multiplicam-se inquéritos, investigações e apurações contra o nome da oposição. No centro dessa engrenagem estão a Polícia Federal e uma Corte cuja esmagadora maioria jamais escondeu afinidade com o Planalto.
Coincidência de calendário, dirão os mais ingênuos.
Engana-se quem imagina que a fatura estará liquidada no domingo. A vitória nas urnas, se confirmada, será apenas o round inicial. O arsenal jurídico em montagem não tem pressa. Serve para, depois, questionar a validade da eleição, contestar a diplomação e buscar a cassação da chapa. Ninguém se iluda: a semente está plantada, e a colheita está prevista para depois da apuração.
Nada disso brota do acaso. Em 2022, uma sucessão de decisões judiciais favoráveis a Lula e desfavoráveis a Jair Bolsonaro ajudou a moldar o desfecho daquela disputa. Foi uma espécie de golpe dentro das regras, executado com toga e carimbo, que, a partir de 2023, consolidou o consórcio que hoje governa o país.
De um lado está o Executivo propriamente dito. De outro, um Congresso em que o governo, mesmo minoritário, mantém aliados em postos de comando. E, a arbitrar os embates, um Supremo disposto a entregar ao Palácio, sempre que necessário, a vitória que o voto parlamentar lhe negou.
É esse consórcio que agora, para usar a expressão mais popular possível, não quer largar o osso. A ex-presidente Dilma Rousseff avisou, anos atrás, que em época eleitoral se pode fazer o diabo. A julgar pelo que se vê, o diabo ficou pequeno.
Ao cerco midiático e à maquinaria jurídica soma-se a gastança populista. São benesses distribuídas a mancheias, endividamento crescente e compromissos impagáveis, cuja conta recairá sobre gerações que ainda nem chegaram à idade de votar. Tudo vale, desde que o poder continue no mesmo endereço.
O roteiro, portanto, está escrito. Se as urnas confirmarem o que as pesquisas indicam, virão as campanhas difamatórias nas redes, a pressão da grande imprensa, as ações nos tribunais e o esforço para transformar uma vitória legítima em processo sob suspeita.
O eleitor precisa saber disso antes de domingo, e não descobrir na segunda-feira. Quando um grupo decide que perder não é opção, a pergunta deixa de ser quem vai ganhar a eleição e passa a ser se a eleição ainda vale alguma coisa.
Nunca antes na história deste país a democracia correu tanto risco. Ou, para ser mais exato, aquilo que ainda resta dela.



