O sapo, a lesma e a Argentina
“Nada é tão ruim que não possa piorar”, uma das mais ácidas citações que compõem as célebres Leis de Murphy, é a síntese destes tempos trágicos que vive a outrora próspera e invejada Argentina.
Quem rejeitou em 2019 a reeleição de Mauricio Macri, punindo-o por não resolver os crônicos problemas econômicos e sociais que vêm devastando o país há décadas, e apostou suas esperanças nas doces ilusões populistas vendidas pelo peronista Alberto Fernández, certamente não imaginava nem de longe que a situação iria se degringolar ainda mais.
Um retrato pungente da catastrófica realidade que os nossos vizinhos enfrentam e das perspectivas ainda mais sombrias que o futuro lhes reserva está descrito na análise impiedosamente precisa feita pelo advogado e escritor argentino Ricardo Lafferriere, respeitado ex-senador e deputado federal, publicada dias atrás no site Infobae, um dos mais acessados portais de notícias de Buenos Aires.
Vou dar um spoiler do artigo, destacando seus primeiros parágrafos:
“A velha parábola do sapo submerso em água aquecida lentamente para que não reaja, até que o calor acabe matando-o, é perfeitamente aplicável ao processo argentino. A rigor, a comparação mais precisa – talvez a mais dolorosa – é a de um caracol ou lesma que é salpicada de sal e seca sem remédio, até a morte.
Você tem que ser voluntariamente cego para não perceber. O país está se dissolvendo lenta mas inexoravelmente, caindo na pobreza extrema, atingindo cada vez mais argentinos. E não é um ritmo inadvertido, mas persistente e sólido.
Tudo o que um país moderno, vital e poderoso significa para o mundo está sendo desmontado e com ele, sua base produtiva.
O campo, a indústria, os serviços, os empresários, estão sendo expropriados para expandir a economia assistencial, sem nenhum estímulo ou compensação que lhes permita continuar gerando riquezas.
Distribuir o que é estrangeiro, mesmo ao custo de destruir a atividade produtiva. Essa é a constante.
O símbolo da relação com o mundo, a moeda nacional, caiu em um ano para metade do seu valor real. Os salários acompanharam esse colapso, mas também a lucratividade empresarial, o valor dos ativos físicos e o valor das empresas. Não por causa da pandemia, mas por causa da mediocridade.
O Brasil sofreu a pandemia com uma intensidade substancialmente maior. O valor de sua moeda, em um ano, passou de 4,06 para 5,19 reais por dólar. O peso passou de 63,20 para 166. Sua deterioração ultrapassou 50%. O valor “oficial” do próprio peso perdeu 10% de seu valor em dois meses (de 1º de novembro a 31 de dezembro).
Projetando essa desvalorização, até o final do ano superará outra queda para metade do seu valor, ou mais.
Os ativos imobiliários perderam 50 por cento do seu valor e quem sustenta que foi apenas 30 por cento está simplesmente iludido com o valor que é exigido por quem quer vender, ignorando que as operações não são realizadas porque ninguém paga na Argentina esses valores.
O país não vale a pena. Todo mundo quer vender e ninguém quer comprar. Ir embora, não vir.”
E por aí vai o triste diagnóstico, intitulado “Um país que se dissolve”, que nos mostra como as nações morrem ou, no caso, são mortas.
Enquanto eu lia o texto lembrei-me dos executivos da Ford que atribuíram ao ambiente econômico desfavorável do Brasil o principal motivo para fechar suas fábricas aqui e mantê-las funcionando na Argentina.
Vê-se que tomaram a decisão certa.
(Leia e compartilhe outras postagens acessando o site: caiogottlieb.jor.br)
2 comentários
Jefferson Zago · 20/01/2021 às 17:19
É, e se a Argentina quebrar, teremos outro exemplo além da Venezuela. Porém ainda há muitos que queiram isso por aqui.
Celso BEVILACQUA · 20/01/2021 às 12:07
É lamentável a situação que nossos patrícios se encontram, talvez o maior castigo por uma decisão política mal tomada dos últimos anos.
Ir. Caio, Muito bom análise vc nos trás porque isso vai nos mostrando o perigo de um regime igual para nós brasileiros.
Parabéns