Opinião

O spoiler que vem de Paris

A França ensinou o Ocidente a pensar. Deu ao mundo Voltaire e Montesquieu, Victor Hugo e Balzac, Descartes e Tocqueville, Pasteur e Marie Curie, e gravou na fachada de suas prefeituras um lema de três palavras, liberdade, igualdade, fraternidade, que atravessou oceanos e virou a gramática universal dos direitos.

Pois é essa mesma França que, neste outono, assiste ao retorno das barricadas. Não as românticas de Os Miseráveis, mas outras, feitas de lixeiras incendiadas, vitrines estilhaçadas e portões de escola trancados a cadeado.

O estopim parecia modesto. Em setembro, alunos dos liceus de Créteil, na periferia parisiense, bloquearam a entrada das escolas para protestar contra a falta de professores, as salas superlotadas, os horários extenuantes e os prédios caindo aos pedaços.

Em poucas semanas, a fagulha virou incêndio nacional. Centenas de colégios fechados, universitários, sindicatos e pais nas ruas, pescadores revoltados com o preço do combustível e os velhos coletes amarelos de volta à cena.

Vieram os saques, os confrontos com a polícia, estudantes mutilados, a prefeitura histórica de Limoges consumida pelo fogo, cerca de 2,4 mil detidos num único fim de semana e toque de recolher em algumas regiões.

A presença maciça de jovens dos bairros de imigrantes empurrou a questão migratória para o centro do debate. Trata-se de uma revolta difusa, sem líder nem pauta única, que reclama de tudo porque quase tudo, de algum modo, deixou de funcionar.

Para entender como a pátria das Luzes chegou a esse ponto, poucas leituras são tão lúcidas quanto a de Brivael Le Pogam.

Programador, empreendedor e criador de conteúdo, cofundador e diretor técnico da Argil, plataforma de inteligência artificial que produz vídeos e avatares personalizados, ele se tornou uma das vozes francesas de maior alcance global nas redes, com publicações de milhões de impressões replicadas por figuras como Elon Musk.

Em meados do ano, ganhou notoriedade ao pedir desculpas, em nome dos compatriotas, por terem exportado a French Theory, matriz intelectual do wokismo e do politicamente correto que engessou o debate público e converteu cada diferença em campo de batalha.

Agora em outubro, passou a ocupar espaço na mídia conservadora americana, Fox News incluída, ao expor números sobre a derrocada econômica francesa provocada pela carga tributária, pelo cipoal normativo e pela gastança oficial.

Defende sem rodeios a desregulamentação do mercado europeu como condição para que o continente não perca de vez o bonde da tecnologia e da inteligência artificial.

Num texto publicado neste mês, que correu o mundo enquanto as ruas francesas ardiam, Le Pogam se dirige aos Estados Unidos e reconstitui a trajetória do seu país do pós-guerra aos dias atuais com a frieza de quem desmonta um relógio para mostrar exatamente onde a engrenagem emperrou. Merece ser lido na íntegra:

“Meus queridos amigos americanos, na minha última publicação eu lhes dei um panorama de onde a França se encontra hoje. Agora, permitam-me mostrar como chegamos aqui.

Quero que vocês vejam o filme inteiro antes de comprarem o ingresso.

Após a guerra, a França era uma máquina. Nós a chamávamos de Trente Glorieuses, trinta anos gloriosos.

Construímos o Concorde, a aeronave mais bonita já feita. Construímos uma frota de reatores nucleares em cerca de quinze anos e nos demos uma das energias elétricas mais limpas e baratas do mundo. Construímos o Ariane e colocamos a Europa no espaço. Construímos o TGV, o trem mais rápido da Terra. Inventamos o Minitel, uma rede online em milhões de lares antes que a maioria de vocês tivesse ouvido falar da internet. Não éramos um museu. Éramos construtores.

Então veio 1981. François Mitterrand. Pensem nele como o nosso Bernie Sanders, só que ele realmente ganhou. Ao seu lado, no gabinete vizinho ao dele no Élysée, sentava-se um prodígio de 37 anos chamado Jacques Attali, seu conselheiro especial pelos dez anos seguintes.

As mentes mais brilhantes da esquerda, convencidas de que podiam administrar uma economia a partir de um ministério. Eis o que eles fizeram. Governaram com ministros comunistas. Em 1982, nacionalizaram dezenas de bancos e os maiores grupos industriais do país: Paribas, Suez, Saint-Gobain, Thomson, Pechiney, Rhône-Poulenc.

Reduziram a idade de aposentadoria para 60 anos. Cortaram a semana de trabalho para 39 horas e adicionaram uma quinta semana de férias remuneradas. Criaram um imposto sobre a riqueza. Contrataram massivamente para o setor público.

A realidade bateu à porta em menos de dois anos. O capital fugiu, a inflação disparou e o franco foi desvalorizado três vezes. Em março de 1983, Mitterrand teve que pisar fundo no freio e impor austeridade apenas para permanecer no sistema monetário europeu.

Mas aqui está o truque: os freios nunca reverteram nada. Eles apenas desaceleraram o mecanismo. A chamada direita voltou com Jacques Chirac, e nada foi desfeito.

Sob a presidência de Chirac, a França aprovou a semana de trabalho de 35 horas. Fosse de esquerda ou de direita, cada governo adicionava mais um programa, mais uma regra, mais um imposto, e ninguém nunca retirava nenhum.

Ao mesmo tempo, a classe política fez algo ainda mais destrutivo do que a má economia. Transformou a juventude em um instrumento político. Em vez de ensinar os jovens, incluindo milhões de filhos de imigrantes, a amar o país em que viviam, ensinou-lhes uma história de culpa e ressentimento: a França como opressora, a França como algo a ser ressentido.

Você não pode integrar pessoas em um país que as ensinou a desprezar. Estamos vivendo com as consequências dessa narrativa hoje, em nossas escolas, nossos subúrbios, nossas ruas. Vieram então quarenta anos de lento declínio, até chegar a Macron. E a história tem um final perfeito.

Em 2007, Jacques Attali presidiu uma comissão sobre como liberar o crescimento francês. Seu relator adjunto era um jovem funcionário público chamado Emmanuel Macron. A comissão propôs mais de 300 reformas para libertar a economia. Quase nenhuma foi implementada. Até os homens que construíram o sistema sabiam que ele não estava funcionando, e nem mesmo eles conseguiram desfazê-lo.

Nenhum orçamento equilibrado desde 1974. Gastos públicos em torno de 57% do PIB. Dívida acima de 3.300 bilhões de euros. Crescimento estagnado abaixo de 1%. Agora, o número que deveria tirar o seu sono. Em 1995, o PIB por pessoa na França era de cerca de US$ 27.000. Na América, cerca de US$ 29.000. Estávamos pau a pau. Hoje, a França está em torno de US$ 49.000. A América está em torno de US$ 90.000.

Vocês são agora quase duas vezes mais ricos por pessoa do que nós. O que mudou? Não o nosso talento. Não os nossos engenheiros. Não as nossas escolas de matemática. A única coisa que mudou é que apostamos tudo no socialismo.

As 35 horas, a regulamentação sem fim, os impostos que afugentam qualquer um que construa, a crença de que o Estado deve fazer tudo e o indivíduo deve pedir permissão para tudo. Há uma frase que as pessoas adoram atribuir a Einstein: insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes.

Nós tentamos. Por quarenta anos, nós tentamos. Cada governo prometia que mais um programa, mais um imposto, mais uma regulamentação finalmente consertaria as coisas.

Você acabou de ver onde isso nos levou. Portanto, se você escolher o Partido Democrata, que está literalmente se tornando socialista diante dos seus olhos, você merecerá o que virá a seguir.

Deixe-me dizer exatamente o que acontecerá se você seguir por esse caminho. Ninguém vai votar pelo declínio. Cada medida vai parecer generosa, compassiva, razoável.

Seus construtores vão lentamente embora ou deixarão de construir. Seu Estado vai crescer a cada ano e nunca encolherá. Sua dívida vai se acumular. E, em trinta anos, seus filhos olharão para um gráfico como o que acabei de descrever e se perguntarão quando tudo deu errado.

Vocês ainda têm algo que nós perdemos. Vocês têm Elon Musk enviando foguetes para a órbita e pousando-os em pé. Vocês têm Palmer Luckey construindo a indústria de defesa do futuro. Vocês têm Jeff Bezos, Jensen Huang e milhares de fundadores de quem ninguém ouviu falar ainda, construindo em garagens neste exato momento.

Confiem em seus empreendedores. Não confiem em seus políticos. Eu venho do seu futuro. Não o tornem o de vocês.”

A França descrita ali não fracassou por escassez de gênio, mas por excesso de tutela. O país que pôs um avião supersônico no céu e um foguete em órbita acabou refém de uma burocracia que se alimenta da própria expansão, e a conta chegou em forma de pedra arremessada contra a vidraça. E o retrato tem endereço conhecido deste lado do Atlântico.

Neste domingo, o Brasil volta às urnas com duas rotas que não admitem meio-termo.

De um lado, Flávio Bolsonaro, que chegou à frente no primeiro turno empunhando a bandeira da liberdade econômica, da segurança jurídica, da livre iniciativa e da meritocracia, a mesma receita de governo enxuto e setor produtivo desimpedido que fez a prosperidade das nações desenvolvidas.

Do outro, Lula em busca do quarto mandato, oferecendo o repertório de sempre: um aparato mastodôntico, que vive de arrancar tributos escorchantes de quem trabalha e produz, empilha endividamento, distribui benesses, financia o consumo em lugar da produtividade e trata o empresário como suspeito permanente, num ambiente em que as regras mudam no meio do jogo e quem investe nunca sabe o que o espera no ano seguinte.

Tudo isso temperado pela marca registrada das gestões petistas desde o mensalão e o petrolão: desvios, tráfico de influência, privilégios aos amigos do poder e uma corrupção desenfreada que se renova a cada mandato, como se constasse do plano de governo.

O alerta do francês desmonta justamente a ilusão que sustenta esse modelo. A decadência jamais se apresenta pelo nome. Cada bondade custeada pelo erário chega embalada como justiça social, cada novo tributo como reparação, cada amarra burocrática como proteção ao cidadão.

Somadas, formam o Leviatã que asfixia o empreendedor, espanta o capital e condena o país a décadas de mediocridade produtiva, enquanto a escola, em vez de formar, adestra no ressentimento.

O Brasil sequer teve os seus trinta anos gloriosos para queimar; corre o risco de herdar apenas a fatura.

Desta vez, o aviso chegou em francês, com legenda e antecedência.

No domingo, o Brasil decide se aprende com a lição alheia ou se prefere aprendê-la na própria pele, da maneira mais cruel, quando a dívida já não couber no orçamento, as ruas estiverem entregues à fúria e for tarde demais para devolver o amanhã a uma geração inteira.

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