A elite do cinema tupiniquim implora pela teta

Bastam as urnas ameaçarem virar a página para um velho filme voltar ao cartaz. O enredo não muda, o elenco também não, e o desfecho é sempre um apelo dirigido a quem fala inglês.
A nova sessão estreou no sábado (10), nas páginas da Variety, a bíblia da indústria do entretenimento e vitrine obrigatória para quem quer ser lido em Hollywood. Endereço escolhido a dedo.
São 65 assinaturas de profissionais do cinema nacional, todos integrantes da Academia que distribui o Oscar, pedindo “atenção internacional rigorosa” para o segundo turno de 25 de outubro.
No elenco estão Wagner Moura, Sônia Braga, Alice Braga, Kleber Mendonça Filho, Fernando Meirelles, Petra Costa, Anna Muylaert, Daniel Filho, Karim Aïnouz, Gabriel Mascaro e Rodrigo Teixeira, produtor de “Ainda Estou Aqui”.
Depois de tantas temporadas cortejando votantes em Los Angeles atrás da estatueta, a turma inaugurou uma categoria inédita na premiação: a de melhor presidente da República, com júri estrangeiro e vencedor definido antes da abertura do envelope.
O texto é um mosaico de sobressaltos. Há denúncia de suposta interferência americana, suspeita de que as plataformas digitais favorecem Flávio Bolsonaro e até um puxão de orelha na imprensa brasileira, acusada de “normalizar” propostas atribuídas ao candidato.
Nada disso vem com prova, apenas com o pedido de que alguém, de preferência lá fora, investigue. O ponto alto do drama é a constatação de “sinais preocupantes de desrespeito às normas democráticas”.
Traduzido do idioma da militância para o português, o sinal preocupante tem nome e sobrenome: a chance real de Flávio vencer uma disputa que, no primeiro turno, foi decidida por 1,87 ponto percentual.
Todo torcedor conhece o lance. O atacante dispara sozinho, o goleiro já está vendido, a arquibancada se levanta e o juiz trila o apito. Falta? Impedimento? Mão na bola? Nada disso. A infração é o perigo de gol.
A carta segue o mesmo regulamento: não aponta irregularidade, aponta a ameaça de que a bola entre. E quando a bola ameaça entrar, a regra é parar o jogo.
O trecho mais revelador do manifesto, porém, nem se esforça para esconder o que está em jogo: “Proteger a liberdade de expressão e garantir a sustentabilidade a longo prazo da indústria audiovisual brasileira são ações indissociáveis da defesa da democracia”. Leia-se: a democracia termina onde termina o patrocínio.
Os signatários dizem temer a volta do cenário em que o Ministério da Cultura foi “fechado”. O que houve, na verdade, foi um rebaixamento de status para secretaria, dentro do enxugamento da Esplanada.
A mudança doeu menos no artista anônimo do que no bolso de quem faz ponto nos gabinetes de Brasília.
Porque o nervo exposto é financeiro. Petrobras, Banco do Brasil, Caixa e Correios têm sido pródigos, nos governos do PT, em despejar verbas de patrocínio aos borbotões em filmes, musicais e peças, sem critério que se veja e sem limite que se respeite.
Os Correios, aliás, são um capítulo à parte: mergulhados no vermelho, seguem bancando espetáculo com dinheiro que não têm, num buraco sem fundo tapado pelo contribuinte.
E não raro o cheque vai para produções de gosto duvidoso, apelativas, deprimentes, que afrontam a moral e os bons costumes da maioria que as financia sem jamais ter comprado ingresso.
Houve um intervalo nessa farra. No governo Bolsonaro, junto com o rebaixamento do ministério, veio a moralização na destinação dos incentivos e uma distribuição mais equilibrada, menos dependente de sobrenome e de trânsito em gabinete. É a volta desse intervalo que tira o sono dos signatários.
A gritaria de agora não é pela democracia, é pela torneira.
A Lei Rouanet completa o quadro. O mecanismo é legítimo e não há pecado em incentivar grandes nomes da cultura nacional.
Só que o dinheiro é público: são impostos que as empresas deixam de recolher e destinam a projetos culturais. O espírito da lei sempre foi amparar quem não tem fama, padrinho nem acesso aos palácios.
Na prática, a captação se concentra nos nomes consagrados e politicamente bem relacionados, justamente os que menos precisariam dela, porque já atraem bilheteria e patrocinador por conta própria.
Quando o teto de captação por projeto foi drasticamente reduzido, quem gritou mais alto não foi o artista do interior.
Daniela Mercury não assina esta carta, mas emprestou o nome a outros manifestos ainda no primeiro turno. Nas redes sociais, a antiga rainha do axé ganhou um título novo, o de rainha da Lei Rouanet. O apelido diz muito sobre a relação entre a classe artística mais influente e o poder.
A gratidão costuma vir em forma de palanque, declaração de voto e ataques à oposição, uma espécie de contrapartida que nenhum edital exige, mas que todos parecem entender.
A carta não pede voto em Lula. Nem precisa. Basta concentrar todas as farpas em Flávio e deixar que Hollywood complete a frase.
No fim, a democracia que os signatários juram proteger cabe inteira numa planilha de captação de recursos. E, para desespero deles, nenhum jurado da Academia vota no dia 25.



