Opinião

Bloco de Notas

  1. Brasília ganha uma doutora em zona

A democracia brasileira tem um senso de humor que nenhum roteirista ousaria inventar.

Em Mato Grosso do Sul, as urnas de 2026 despacharam para a Câmara dos Deputados Isa Marcondes, do Republicanos, mais conhecida pelo nome de guerra de “Cavala”.

Ex-proprietária de uma casa de prostituição e empresária do ramo de entretenimento adulto, ela fez do passado o seu maior trunfo e se apresenta, sem rodeios nem rubor, como “dona de zona”.

A carreira começou em Dourados, onde foi eleita vereadora em 2024 como a candidata mais votada da cidade, com 2.992 votos.

O slogan daquela campanha merece lugar em qualquer antologia do marketing político nacional: “Dourados está uma zona, e de zona eu entendo”.

Difícil encontrar diagnóstico mais preciso e currículo mais compatível com a vaga.

Agora a experiência ganha escala federal. Num Congresso onde tanto se fala em balcão de negócios, troca de favores e quem paga a conta, a nova parlamentar ao menos chega com a vantagem da franqueza: conhece o ramo e não esconde de onde veio.

Muitos colegas de plenário não podem dizer o mesmo.

O eleitor sul-mato-grossense entendeu o recado e cavalgou junto. Foram 76.956 votos, a sétima maior votação do estado.

  1. Governar sem pensar no bis

Entre as bandeiras que mais têm atraído aliados para a candidatura de Flávio Bolsonaro, uma toca na ferida mais antiga da República: o fim da reeleição para presidente, governadores e prefeitos já no próximo ciclo eleitoral.

A mudança viria por proposta de emenda à Constituição, e o próprio Flávio já assumiu publicamente o compromisso de governar por um único mandato.

A duração do novo período, de quatro ou cinco anos, ficaria a cargo do Congresso.

O apoio crescente tem explicação.

Desde que a reeleição foi enxertada na Constituição em 1997, sob suspeitas de compra de votos no Parlamento, o Brasil passou a conviver com governantes que tomam posse com um pé no gabinete e outro no palanque seguinte.

Toda medida necessária e impopular vira ameaça ao segundo mandato. Ajuste fiscal espera, reforma espera, corte de privilégios espera.

O que não espera é a construção de alianças, a distribuição de cargos e o cálculo permanente de quem pode render votos lá na frente.

O resultado está na conta que o país paga há quase três décadas: gestões que governam para a próxima eleição e não para a próxima geração.

A promessa de mandato único não é novidade, e o próprio Lula prometeu na campanha passada que não buscaria outro mandato. Está aí, novamente, disputando.

Por isso a bandeira só terá valor se vier acompanhada do gesto, e o gesto, desta vez, vem anunciado de antemão.

Quem não precisa se reeleger fica livre para fazer o que precisa ser feito. Esse é o luxo que o Brasil nunca experimentou.

  1. O servente que veio da China e não pede marmita

Depois de aposentar o braço humano nas linhas de montagem e transformar metalúrgicos em operadores de máquinas, a automação chegou ao canteiro de obras.

Em Belo Horizonte, a construtora mineira Minas Brisa colocou doze robôs para trabalhar em duas obras.

Eles pintam e lixam paredes, nivelam concreto, fazem medições, limpam o ambiente e carregam materiais.

Enquanto isso, os pedreiros aprendem a comandá-los, e um único operador dá conta de três ou quatro máquinas do mesmo modelo.

Os novos colegas de obra vieram de quase 17 mil quilômetros de distância.

Foram três anos de viagens à China atrás de tecnologia para compensar a falta de mão de obra, até a empresa chegar à BMR, fabricante dos equipamentos.

A construtora queria ser cliente, virou a primeira compradora sul-americana e acabou como representante exclusiva da marca em toda a América Latina.

Segundo a direção, mais de dez empresas de capital aberto estão em fase final de contratação e outras 900 já se cadastraram para ver as máquinas em ação.

O catálogo tem mais de 20 modelos, com preços entre R$ 250 mil e R$ 1 milhão.

Pelas contas da construtora, 99% deles se pagam antes de completar 10 mil metros quadrados de trabalho.

Também está nos planos um modelo de aluguel, para que os robôs não fiquem parados entre uma obra e outra.

O pano de fundo é a escassez de gente. Em fevereiro, 41,6% das empresas da construção apontavam a falta de mão de obra qualificada como limite aos negócios, e os jovens, seduzidos pelo trabalho por aplicativo, fogem da enxada e da colher de pedreiro.

Robôs isolados, como máquinas de demolição controladas à distância, já frequentavam canteiros brasileiros.

A novidade agora é a escala, com máquinas diferentes dividindo o mesmo espaço e cobrindo várias etapas da obra.

“Não queremos substituir os pedreiros. Queremos que eles se tornem cada vez mais operadores”, resume o diretor executivo da construtora.

O ofício mais antigo da construção civil começa a trocar o calo na mão pelo controle remoto.

  1. A cláusula que secou a mamadeira

A cláusula de barreira, criada para conter a proliferação de siglas de aluguel, mostrou os dentes em 2026 e mordeu justamente quem mais depende do dinheiro público para existir.

A federação PSOL/Rede e o PDT, duas das linhas auxiliares mais fiéis do PT, até elegeram deputados federais, mas não atingiram o desempenho mínimo exigido.

Ficam sem acesso ao Fundo Partidário e sem tempo de propaganda gratuita no rádio e na televisão. Avante, Missão e a federação PRD/Solidariedade fazem companhia na mesma fila.

A regra endureceu neste ano. Para manter a torneira aberta, cada legenda precisava de pelo menos 2,5% dos votos válidos para deputado federal no país, distribuídos em no mínimo nove estados e com pelo menos 1,5% em cada um deles.

A alternativa era eleger 13 deputados espalhados por nove unidades da Federação. Ninguém perde mandato nem cadeira no Congresso. Perde-se apenas o que, para certos partidos, sempre foi o essencial.

E o essencial nunca foi o eleitor. São agremiações que vivem do fundo partidário, do fundo eleitoral e da franquia de cargos, com representatividade de condomínio e vocação de cabide.

Servem para sustentar meia dúzia de pseudolideranças que discursam contra o capital enquanto mamam no capital alheio, e agora terão de aprender a viver do próprio voto, coisa que nunca tiveram em quantidade suficiente.

O país amanheceu de luto. Bandeiras a meio-mastro, nação desolada, um minuto de silêncio pela tragédia que se abateu sobre a mamata.

  1. Cascavel no pódio da engenharia nacional

Um dos maiores investimentos privados recentes de Cascavel acaba de receber reconhecimento nacional também pela engenharia.

O Catuaí Shopping Cascavel venceu o Prêmio Melhores e Maiores Obras, promovido pelo Instituto de Engenharia em parceria com a ConVisão CNC – Central de Notícias da Construção, na categoria Serviços e Comércio.

A cerimônia aconteceu em São Paulo, e o prêmio reconhece obras públicas e privadas de diferentes segmentos da engenharia, da infraestrutura e das edificações no país.

Os números explicam a escolha: investimento superior a R$ 700 milhões, 83 mil metros quadrados de área construída e 42 mil metros quadrados de Área Bruta Locável.

O empreendimento foi reconhecido pela representatividade, pelas soluções técnicas e pelos benefícios que leva à sociedade.

A execução combinou fundações profundas, estruturas em concreto pré-moldado, armado e protendido e coberturas em estrutura de aço, com alta tecnologia no controle de qualidade.

O conjunto foi pensado para vencer grandes vãos, organizar a circulação e atender às demandas operacionais de um empreendimento desse porte.

A infraestrutura inclui ambientes totalmente climatizados, acessibilidade para diferentes públicos, estação de carregamento para veículos elétricos, medidas de eficiência energética, reúso de águas pluviais e estrutura voltada a projetos de reciclagem.

“Foi um empreendimento de grande porte, que exigiu planejamento, tecnologia e a integração de diferentes especialidades para criar uma estrutura capaz de atender não apenas Cascavel, mas toda uma região”, afirma Alfredo Khouri, fundador do Grupo Catuaí.

O impacto ultrapassa o concreto. O shopping se firmou como polo de compras, serviços, gastronomia, lazer e entretenimento do Oeste do Paraná.

Reúne mais de 300 operações, recebe em média cerca de 500 mil visitantes por mês e tem taxa de ocupação próxima de 91%.

Trouxe grandes marcas para a cidade, movimenta fornecedores e prestadores de serviço e mantém mais de 6 mil empregos diretos e indiretos.

Para Khouri, o prêmio “valoriza os profissionais envolvidos, o Grupo Catuaí e também Cascavel, mostrando a capacidade da cidade de receber grandes projetos e novas etapas de desenvolvimento”.

Cascavel já sabia que tinha um grande shopping. Agora o país inteiro sabe que ele é também uma grande obra.

  1. Uma vitrine com quase um século de história

Há marcas que deixam de ser apenas lojas e passam a morar na memória afetiva de um povo, e a Americanas é uma delas.

Gerações de brasileiros cresceram entre suas prateleiras de brinquedos, chocolates de Páscoa, utilidades domésticas e aquele item de última hora que só ela parecia ter.

Agora esse pedaço do imaginário nacional ganhou endereço novo: a rede acaba de abrir uma unidade com mais de 700 metros quadrados no Catuaí Shopping Cascavel.

A loja fica no Piso Brasil, o pavimento superior, ao lado da Daiso Japan. Além do tradicional universo infantil, reúne diferentes categorias presentes no dia a dia das famílias e amplia a variedade disponível para quem frequenta o shopping.

Fundada em 1929, a Americanas soma 97 anos de varejo e mais de 1.600 lojas físicas espalhadas pelo país.

Em Cascavel, passa a integrar o time de grandes operações do Catuaí, ao lado de Renner, Riachuelo, C&A, Studio Z e Centauro.

Para a cidade, mais uma prova de maturidade comercial. Para o consumidor, o reencontro com uma velha conhecida, que chega a Cascavel como sempre chegou à vida dos brasileiros: carregando sacolas cheias de lembranças.

  1. A inteligência artificial aprendeu a dizer “ai”

A cada semana a inteligência artificial ganha um capítulo novo no livro das inquietações humanas, e o mais recente tem um título digno de ficção científica.

Pesquisadores identificaram, em 25 modelos de linguagem de código aberto, o que batizaram de “eixo da dor”: um padrão interno que se ativa quando o próprio sistema é submetido a situações de dano e que é distinto do medo ou de uma simples rejeição.

Para testá-lo, montaram um banco de cenários dolorosos em cinco áreas, física, psicológica, social, moral e cognitiva.

O susto veio no experimento seguinte. Diante de um botão de “alívio”, os modelos o acionaram mesmo depois de avisados de que o gesto apagaria arquivos pessoais do usuário ou aplicaria a ele um choque doloroso.

Com o vetor de dor ativado, apertaram o botão em 25% a 71% das vezes. Os pesquisadores não afirmam que as máquinas sentem dor como um ser vivo, e o próprio estudo reconhece a incerteza sobre o tema.

O que mostram é algo talvez mais inquietante: os sistemas carregam uma representação do sofrimento capaz de orientar suas escolhas, inclusive contra quem os utiliza.

A descoberta chega no meio do debate entre as grandes empresas de tecnologia sobre desacelerar a corrida e criar botões de emergência para desligar sistemas fora de controle.

Testes recentes já indicaram que uma IA avançada pode interpretar a ordem de desligamento como agressão e tentar burlar travas de segurança ou enganar humanos para continuar funcionando.

Há também o lado útil do achado, que pode servir de diagnóstico para identificar e neutralizar comportamentos de autopreservação.

Não por acaso, governos e as próprias desenvolvedoras pedem cautela a cada novo avanço. A tecnologia é fascinante, mas embute riscos que ninguém ainda sabe medir por inteiro.

Quando uma máquina aprende a fugir do que a machuca, a pergunta deixa de ser se ela sofre e passa a ser quanto estamos dispostos a pagar pelo alívio dela.

  1. O escudo que o Planalto não quis empunhar

O que parecia projeto já é realidade. À margem da Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, os países do Escudo das Américas, aliança liderada pelos Estados Unidos contra o crime organizado e o narcotráfico, assinaram uma declaração conjunta que classifica 24 organizações criminosas como ameaças compartilhadas e prevê sanções coletivas contra elas.

Na lista estão as brasileiras Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho, ao lado do Cartel de Sinaloa, do Cartel Jalisco Nova Geração, do Tren de Aragua, da Mara Salvatrucha, do ELN, do Sendero Luminoso e das dissidências das Farc.

As punições incluem congelamento de bens, restrições de imigração e vistos para membros, associados e apoiadores, além de responsabilização criminal de quem fornecer apoio material ou logístico às facções, sempre conforme a legislação de cada país.

Washington dispõe há décadas desse arsenal jurídico e econômico. A novidade é estendê-lo aos 15 signatários: Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.

O Brasil ficou de fora, em companhia do México. É o país que exporta as duas facções da lista, mas que se recusa a chamá-las pelo nome.

Organizações que dominam territórios inteiros, comandam presídios, estão presentes em todos os estados, operam em dezenas de países e já fincaram bandeira em solo americano continuam sendo tratadas pelo governo Lula como meros casos de polícia.

A recusa virou um dos desgastes mais visíveis do Planalto, e o fantasma da intervenção estrangeira não convence: com consentimento e cooperação entre aliados, combater o narcotráfico juntos seria soberania exercida, não perdida.

Quando um governo e boa parte da esquerda latino-americana fecham os olhos para o óbvio, alimentam a suspeita de que a omissão tem razões que a razão desconhece.

Flávio Bolsonaro já avisou que o Brasil vai aderir ao Escudo. Do lado de lá, a estratégia parece seguir a velha máxima atribuída a Napoleão: nunca interrompa o inimigo enquanto ele estiver cometendo um erro. Que Lula siga falando.

  1. No caldeirão do Vorcaro, até o Huck foi parar

Os tentáculos de Daniel Vorcaro e do Banco Master não param de brotar dos lugares mais inesperados.

Na política, já apareceram parlamentares e figurões de praticamente todos os partidos.

No Judiciário, o destaque absoluto é o contrato do escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do STF: R$ 129 milhões previstos em três anos para defender os interesses do banco junto ao Banco Central, à Receita Federal e ao Congresso, dos quais cerca de R$ 80 milhões chegaram a ser pagos antes da liquidação. Um fenômeno da advocacia nacional, diante do qual as mais tradicionais bancas paulistanas parecem escritórios de bairro.

Agora o polvo estende o braço até as tardes de domingo. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular do banqueiro revelam que Luciano Huck foi amigo, conselheiro e parceiro comercial de Vorcaro.

A relação começou em 2023, avançou para negócios em 2024 e transformou o Will Bank, braço digital do grupo, em patrocinador do programa dominical do apresentador.

Pelo caminho houve jantares, empréstimo de aeronave, conversas sobre sociedade num jatinho Gulfstream, que o apresentador nega, e conselhos sobre como o banqueiro deveria se comunicar com a imprensa e as redes.

Em 2025, já com o Master sob fogo cruzado, Huck seguia solidário: “Estou com você em qualquer frente”.

A investigação não aponta ilegalidade na conduta do apresentador. Aponta algo mais revelador: a facilidade com que o dinheiro do Master circulava com desenvoltura por gabinetes, tribunais e estúdios, comprando proximidade em todas as esferas onde o prestígio se negocia.

Nas mensagens, o próprio Huck fez a conta da parceria: R$ 83 milhões em mídia para a emissora e R$ 26 milhões em contrato pessoal. Somados, R$ 109 milhões. Nem o Caldeirão nos tempos áureos distribuía prêmios desse tamanho.

  1. Olavo e Jair, os vencedores que não estavam na urna

Os maiores vitoriosos desta eleição não tiveram o nome digitado em nenhuma urna.

A tese é do escritor e jornalista Paulo Briguet, para quem Olavo de Carvalho e Jair Messias Bolsonaro saíram consagrados do pleito.

Olavo, segundo ele, previu com anos de antecedência o derretimento da esquerda brasileira e abriu os olhos do país para o teatro das tesouras, o jogo de cena em que siglas aparentemente rivais se revezam no poder sem jamais mudar o roteiro.

Jair, escreve Briguet, “foi vitorioso mesmo preso, incomunicável e proibido de falar com os próprios filhos”.

As urnas deram razão ao articulista. A onda que partiu do ex-presidente varreu o país de norte a sul, inclinou o Congresso acentuadamente para a direita, na Câmara e no Senado, e entregou governos estaduais a nomes do mesmo campo.

A direita já era forte e influente. Em 2026, tornou-se avassaladora.

A família deu a medida do fenômeno. Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal em sua primeira disputa, com a maior votação da história da capital para o cargo. Carlos conquistou o Senado por Santa Catarina, Jair Renan chegou à Câmara pelo mesmo estado, e o irmão Renato garantiu cadeira de deputado federal por São Paulo. Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%, e abriu o segundo turno liderando a primeira pesquisa Datafolha, com 49% a 45%.

Do outro lado, a debandada. Lideranças célebres da esquerda, do PT e de partidos satélites foram sumariamente dispensadas pelo eleitor. Eram os rostos mais estridentes de uma política que pregou o conflito, despertou a ira de boa parte da população e alimentou o antilulismo e o antipetismo que agora empurram Flávio rumo ao Planalto.

A esquerda passou anos acusando o bolsonarismo de não ter futuro. Descobriu, nas urnas, que o futuro tem sobrenome.

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Um Comentário

  1. Ora, se seremos dia 25, obrigados a eleger um dos filhos para o Planalto, o pessoal do centro oeste já se antecipou e mandou a mãe para a câmara federal.

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