Polilaminina: agora é pra valer

Perdida no meio do noticiário do tiroteio eleitoral, uma novidade alvissareira atravessou a semana quase sem ser notada.
Logo ela, cercada de expectativa havia meses, capaz de mobilizar tribunais e congestionar os telefones de neurocirurgiões país afora.
Desde a quinta-feira, 24 de setembro, a polilaminina está oficialmente em busca de seus primeiros voluntários humanos, num estudo que carrega nos ombros a esperança de milhares de brasileiros presos a uma cadeira de rodas.
Derivada da laminina, proteína produzida naturalmente pelo organismo, a molécula nasceu da parceria entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro e o laboratório Cristália, que se apresenta como seu único fabricante no mundo.
À frente do trabalho está a bióloga Tatiana Sampaio, que há quase três décadas se debruça sobre uma pergunta que a medicina tratava como sentença definitiva: é possível reconstruir a ponte partida dentro da medula?
Esta primeira etapa não pretende provar milagres. O foco é verificar se a aplicação é segura e identificar possíveis efeitos adversos. Com apenas cinco participantes, o desenho sequer permite medir se o tratamento funciona. Podem ser incluídos adultos de 18 a 72 anos com lesão grave na medula, entre as vértebras T2 e T10, sofrida há menos de 72 horas e com indicação de cirurgia.
A substância será aplicada uma única vez na área lesionada, durante o procedimento, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP ou na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, seguida de seis meses de acompanhamento.
O SAMU dará apoio no transporte rápido dos casos elegíveis, e a reabilitação ficará a cargo da AACD. Somente com o risco sob controle virão as fases 2 e 3, com grupos maiores e a verdadeira prova de eficácia.
O trajeto até aqui não foi curto. A Anvisa autorizou o ensaio em 5 de janeiro, mas o projeto só recebeu o aval da comissão de ética do HC em julho, depois de uma série de alterações solicitadas pela Cristália.
O hospital ainda organiza a estrutura, treina equipes e prepara exames, e admite que, diante de critérios tão restritos, a identificação do primeiro candidato apto pode demorar.
O entusiasmo tem raízes. Em fevereiro, o assunto ganhou projeção nacional com os dados de um estudo-piloto feito com oito pessoas. Seis apresentaram algum grau de recuperação neurológica, e uma delas voltou a caminhar e a se exercitar. Três morreram ao longo do período, segundo os pesquisadores por complicações das lesões, e não pela substância.
A repercussão transformou Tatiana Sampaio em figura popular, saudada por um cantor como a maior celebridade presente em um desfile de Carnaval.
A fama, porém, cobrou pedágio. O piloto não tinha grupo de controle, aquele conjunto de pessoas que recebe placebo ou tratamento padrão e serve de régua para comparação. Sem ele, fica difícil saber se a melhora veio da molécula, das cirurgias e medicamentos ou da evolução natural do quadro.
Há ainda uma armadilha específica desse tipo de trauma: o choque medular, perda temporária de movimentos que, nos primeiros dias, pode se confundir com uma lesão completa, mas que, em casos incompletos, se desfaz espontaneamente. Entidades médicas e científicas pediram cautela.
Enquanto isso, o desespero bateu à porta da Justiça. Até março, eram 59 decisões favoráveis, e a Anvisa havia liberado 33 aplicações em regime de uso compassivo. A pesquisadora chegou a reconhecer, no programa Roda Viva, que a judicialização vinha atrapalhando o avanço dos estudos. Neurocirurgiões relataram procura até de vítimas de AVC, e o laboratório passou a alertar para golpes com ofertas irregulares do produto.
Por isso o início do ensaio pesa mais do que aparenta. Ele devolve a polilaminina ao único território onde uma aposta médica pode virar verdade: o protocolo, a dose medida, a vigilância independente, a paciência das etapas. Ciência séria não se faz por liminar, nem por aclamação.
E há um detalhe que merece ser sublinhado com tinta grossa. Trata-se de um saber nascido em universidade pública, lapidado ao longo de anos num ambiente de orçamentos historicamente apertados, conduzido por mãos brasileiras, convertido em candidato a medicamento por uma farmacêutica nacional e submetido ao crivo regulatório de casa.
Numa nação acostumada a importar remédios, patentes e até complexo de vira-lata, a própria Tatiana Sampaio resumiu o orgulho que o assunto desperta ao lembrar que se trata de uma mulher, cientista e brasileira, autora de uma descoberta para o mundo.
Cura anunciada ainda não existe, e quem a oferece hoje comercializa ilusão.
Mas cinco desconhecidos emprestarão à ciência o momento mais duro de suas vidas, para que multidões possam, um dia, reaver o que perderam.



