Bloco de Notas

- O Master também tinha departamento de eventos
Todo banco tem seus produtos de prateleira: conta corrente, CDB, crédito consignado. O Master, ao que tudo indica, oferecia também uma linha menos convencional, reservada a um público seleto de autoridades e empresários. Informações extraídas pela Polícia Federal dos celulares de Daniel Vorcaro indicam que o banqueiro usava mulheres para agradar convidados em festas privadas de luxo, com garotas de programa, shows de cantores e DJs e bebida farta.
Os registros apontam para dois cenários. O primeiro é uma boate em São Paulo. Ao menos uma festa, com temática de Halloween, teria ocorrido na Madame Satã, na Bela Vista, em outubro de 2023, com a casa fechada para o evento e nomes da música eletrônica como Solomun, DJ Ninja, DJ Vintage e Swedish H. Mafia tocando das 20h30 às 7h da manhã seguinte.
Na época, imagens da noite circularam pelas redes, e internautas se espantaram com a opulência. A lista de convidadas incluiria até mulheres suíças. Os episódios foram noticiados pelo site Fatos Online e detalhados pela revista Piauí.
O segundo cenário é o mar de Angra dos Reis. Segundo a PF, Vorcaro seria dono de uma residência na Ilha do Jorge e promovia eventos a bordo de um barco de alto padrão, com garotas de programa agenciadas e personalidades. Em depoimento, o comandante do iate, Luís Felipe Woyceichosk, contou que o banqueiro era dono da Prime You, empresa de jatinhos cuja diretora de Operações cuidaria de levar as mulheres. O relatório da PF sobre o depoimento resume: “Daniel Vorcaro produzia grandes festas no barco, regadas a bebidas, drogas e garotas de ‘programa’, estas agenciadas (trazidas) por diretora de Operações da PRIME YOU, com a presença de personalidades”.
A novidade nem é tão nova. Em novembro do ano passado, a primeira leva de mensagens do celular do banqueiro já havia revelado o “Cine Trancoso”, na mansão da cidade baiana, apelido inspirado no circuito interno de câmeras que teria gravado autoridades e figuras públicas. Festa com câmera ligada não é hospitalidade, é acervo. E cada convite, ao que parece, vinha com uma apólice de seguro embutida.
- Deixem o casal trabalhar em paz
Poucas armas cortam tão fundo quanto a ironia bem calibrada, e o cronista Eduardo Affonso a manejou com precisão cirúrgica em sua coluna no Globo. O texto veste a pele de um defensor indignado do ministro Alexandre de Moraes e, fingindo absolvê-lo, o condena linha por linha.
O raciocínio do advogado imaginário é de uma candura desconcertante. Por que um marido não poderia ajudar a esposa a redigir um contrato? Ele estaria ali como companheiro, não como magistrado, fiel ao voto de apoiá-la na riqueza e na pobreza. A pobreza, convenhamos, é hipótese remota diante dos R$ 130 milhões que Vorcaro contratou com o escritório da mulher do ministro. E que pai recusaria, para os filhos, um cartão de crédito com limite de R$ 300 mil, sobretudo vindo de quem lhe envia mensagens derramadas de admiração? Recusar seria falta de educação.
Na mesma toada, o cronista pergunta que mal haveria em interceder junto a procurador ou diretor-geral em favor de um amigo aflito, que confessa entregar o próprio destino ao magistrado. Lembra que processar ministro do STF até é possível, mas seria uma pena romper uma tradição tão longeva por tamanha bobagem, ainda mais diante do sacrifício de quem vive em Brasília com salário de R$ 46.366,19, veste capa preta no calor e ainda salvou a democracia. Sobra espaço até para outro personagem, o pai que só queria a companhia do filho numa viagem a Londres, com charuto e uísque, sem fazer questão de marca.
Suspeição, conflito de interesses, prevaricação, advocacia administrativa, obstrução de justiça e corrupção passiva viram, na pena do cronista, meras miudezas diante de pautas supostamente mais urgentes, como a regulação da mídia. A conclusão é a própria piada, entregue com cara séria: o país não avança porque só tem gente implicante, “cheia de mimimi”.
Riso não é sentença. Mas quando a sátira só precisa repetir os fatos para soar absurda, quem deveria corar não é o cronista.
- O freguês vira astro no Festval
Todo frequentador assíduo acaba tomando posse daquilo que ama. Diz “a minha padaria”, “o meu café”, “a minha adega”, como quem fala de um cômodo da própria casa. Foi desse hábito, repetido espontaneamente por quem circula pelas lojas da rede, que o Festval extraiu o novo posicionamento lançado recentemente: a campanha “O Seu Festval”, que põe a identificação do consumidor com a marca no centro da comunicação.
O conceito nasceu da observação de um comportamento recorrente, a maneira como os clientes se referem ao supermercado e incorporam seus espaços à rotina. É o café de todos os dias, a padaria preferida, a fiambreria dos produtos selecionados, a adega escolhida para uma ocasião especial. “Nos últimos anos, investimos muito na qualidade das lojas, no sortimento, nos serviços e no atendimento. Agora, queremos colocar ainda mais em evidência quem dá sentido a tudo isso: o cliente”, destaca Carlos Beal, diretor comercial e de marketing do Festval.
Para o executivo, o mote traduz um laço tecido no cotidiano, à medida que as pessoas se afeiçoam às unidades e passam a enxergá-las como parte de seus momentos. “Mais do que mostrar o que oferecemos, queremos que cada cliente se reconheça no Festval e sinta que existe um supermercado que também é seu”, afirma.
A inspiração também veio dos canais em que o público se manifesta: o serviço de atendimento ao consumidor, as avaliações em plataformas digitais, as redes sociais, as pesquisas e os eventos da rede. O gerente de marketing, Fabiano Szpyra, explica o que emergiu dessa escuta: “Percebemos que existe um sentimento de pertencimento nessa relação. O cliente cria vínculos com a loja, com os espaços e com as pessoas que o atendem. A campanha traduz algo que já acontece de maneira espontânea e aproxima ainda mais a comunicação da experiência real do consumidor”.
A proposta é que o consumidor se veja nas situações retratadas nas peças publicitárias, e por isso quem atende nas lojas também ganhou lugar em cena. “O colaborador está presente nesse material, porque é ele que faz a diferença no dia a dia, é ele quem participa da rotina dos clientes”, pontua Szpyra.
No varejo, onde a disputa costuma se medir em centavos na gôndola, o Festval aposta num ativo que nenhuma promoção compra: o pronome possessivo na boca do cliente.
- Oitenta anos depois, o nazismo perde mais um quadro
A Segunda Guerra terminou em 1945, mas uma de suas frentes continua aberta: a dos museus, galerias e salas de estar por onde ainda circulam obras arrancadas de famílias judias pelo Terceiro Reich. Incontáveis peças seguem em paradeiro ignorado. Uma delas acaba de reencontrar o caminho de casa, e a rota passou por um lugar improvável: um anúncio imobiliário na Argentina.
Em agosto de 2025, jornalistas do diário holandês AD reconheceram, num anúncio online de um imóvel em Mar del Plata, uma tela do século XVIII desaparecida desde os tempos da guerra. O “Retrato de uma Dama” aparecia pendurado acima de um sofá verde, na casa de Patricia Kadgien, filha de Friedrich Kadgien, nazista de alto escalão e consultor financeiro de Adolf Hitler, já falecido.
Quando os promotores entraram na residência de Patricia e do marido, Juan Carlos Cortegoso, a pintura tinha sido retirada. O casal foi acusado de receptação qualificada por ocultar a obra e acabou entregando-a às autoridades argentinas. Desde então, ela estava sob a guarda da Suprema Corte de Buenos Aires.
A tela pertencia ao marchand judeu holandês Jacques Goudstikker, forçado pelos nazistas a vender sua galeria em 1940. Na fuga dos Países Baixos ocupados, a bordo de um navio de carga rumo à Inglaterra com a esposa e o filho, ele levou um pequeno caderno preto em que catalogava cerca de 1.400 obras. Goudstikker morreu durante a travessia, mas a viúva preservou o caderno, que se tornou prova central na longa batalha judicial da família para recuperar o acervo. A autoria também foi revista: atribuída inicialmente ao italiano Giuseppe Ghislandi, a pintura é hoje considerada, com maior probabilidade, obra de Giacomo Ceruti, outro mestre italiano do século XVIII.
No dia 4 deste mês, o juiz Santiago Inchausti, de Mar del Plata, determinou a devolução ao legítimo proprietário. Suspendeu o processo criminal, impôs ao casal dois anos de suspensão condicional e ordenou uma doação em dinheiro a uma instituição pública da cidade. Segundo Herbie Robinson, advogado que representa a família na Argentina, a obra será entregue a Marei von Saher, nora e herdeira oficial de Goudstikker, nas próximas semanas ou meses.
O Reich prometia durar mil anos e não passou de doze. O caderno preto de um marchand em fuga, ao contrário, segue cobrando a dívida quase nove décadas depois.
- O sistema é bruto, meus senhores
Manifesto, por definição, é texto feito para ser assinado às claras. Pois os signatários de um deles estariam sendo convidados a apagar o próprio nome. Empresários de São Paulo relatam ter recebido telefonemas de autoridades de Brasília, em tom de intimidação, para retirar suas assinaturas do “Pela Lei e pelo Brasil — Manifesto pela integridade das instituições e dos Três Poderes”, divulgado em 9 de setembro com críticas ao Supremo Tribunal Federal.
Segundo os relatos, as ligações mencionavam a possibilidade de reabertura de processos ou de prejuízos no andamento de ações judiciais caso o apoio ao documento fosse mantido. A informação foi revelada pelo comentarista Caio Junqueira, no programa WW, da CNN Brasil, e uma fonte ouvida pela Gazeta do Povo confirmou ter tomado conhecimento de abordagens nesse teor.
O detalhe que dá peso ao episódio está na própria lista. Entre os 157 signatários figuram empresários e representantes de companhias com recursos e reclamações em tramitação no STF, em temas que vão de relações trabalhistas e terceirização a questões tributárias. Não é preciso muita imaginação para supor o subtexto de uma conversa dessas: há processos na Corte, e seria prudente não cutucar a onça.
Se confirmados, os telefonemas dizem mais sobre o momento do país do que o próprio manifesto. Quando assinar uma crítica passa a ter custo processual, a liberdade de expressão deixa de ser direito e vira aposta de risco, e o ambiente ganha contornos de estado de exceção. Brasília pode até arrancar assinaturas de um papel. Mais difícil será riscá-las da memória de quem entendeu o recado.
- O Japão senta à mesa da Frimesa
Quando o Kasato Maru atracou em Santos, em 1908, trazia famílias dispostas a plantar num chão desconhecido. Mais de um século depois, a ponte entre os dois países se mede em contêineres refrigerados, e o Oeste do Paraná quer ampliar essa travessia.
No último dia 16, a sede da Frimesa, em Medianeira, recebeu o embaixador do Japão no Brasil, Noguchi Yasushi, para uma reunião estratégica com lideranças do cooperativismo paranaense, num encontro articulado pelo jornalista José Ivaldece Pereira, editor da revista Nova Fase.
Estiveram presentes os presidentes das cinco filiadas da central, C.Vale, Copacol, Primato, Lar e Copagril, além da Coopavel, em torno do tema “Cooperação Agropecuária Brasil-Japão: Inovação e Sustentabilidade”. A visita reforça a posição do Paraná como polo global no fornecimento de alimentos de alto valor agregado e excelência sanitária. Na reunião e na coletiva, o foco foi a ampliação das trocas comerciais, com atenção especial à proteína suína.
O estado já exporta volumes expressivos de frango para o mercado japonês e busca avançar nas negociações técnicas e sanitárias para a liberação das carnes bovina e suína. Neste último segmento, a Frimesa é a maior produtora do Paraná e a quarta maior do país.
O embaixador lembrou os mais de 130 anos de laços diplomáticos e os 118 anos de imigração japonesa, elogiando a qualidade da produção e o papel social das cooperativas: “O Japão tem muito respeito e gratidão pelo povo brasileiro. No agronegócio, buscamos fortalecer ainda mais essa parceria técnica e comercial, sempre pautada pela segurança alimentar, rigor sanitário e sustentabilidade”.
O presidente executivo da Frimesa, Elias José Zydek, classificou a visita como um marco histórico para a região e destacou o preparo do sistema para cumprir exigências internacionais: “A aproximação com o governo e o mercado japonês é fundamental para consolidar a relevância do agronegócio paranaense no exterior. O cooperativismo representa cerca de 35% do PIB do nosso estado e gera mais de 60% dos empregos no Oeste. Apresentar ao embaixador nosso padrão de controle, rastreabilidade e sustentabilidade é um passo decisivo para expandir a presença das nossas proteínas no mercado asiático”.
A anfitriã tem credenciais para a conversa. Central especializada em suínos e derivados de leite, abastecida por famílias associadas às cinco filiadas, a Frimesa soma quase 50 anos de mercado. É a quarta maior empresa de abate e processamento de suínos do Brasil, com mais de 560 produtos e mais de 48 mil clientes entre supermercados, atacarejos, atacado, food service, distribuidores e indústria de alimentos. A operação reúne 6 unidades industriais, 15 centros de distribuição, 41 mil posições de armazenagem, 410 transportadoras e quase 13 mil colaboradores.
Em 2025, 26% das vendas foram para o comércio exterior, em quatro continentes, e 74% para o mercado interno, com crescimento de 7% sobre o ano anterior. O resultado foi um faturamento bruto de R$ 7 bilhões, cifra que o Oeste espera engordar com uma fatia maior do apetite japonês.
- Quem ainda não entrou no Master, levante a mão
Nas escolas de antigamente, a chamada servia para saber quem estava presente. No escândalo do Master, a lógica se inverteu: fica mais rápido perguntar quem faltou. A mais nova convocação chega pelas mãos da própria Polícia Federal, em arquivos encaminhados a ministros do STF.
Os documentos indicam que Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, poderia desembolsar uma fortuna à “turma do KN”. Era assim que assessores do banqueiro se referiam ao desembargador Newton Ramos, do TRF-1, e à esposa, a advogada Camilla Ramos, ambos próximos ao ministro Kassio Nunes Marques. Segundo o Metrópoles, o pagamento dependeria de êxito em causas do setor sucroalcooleiro, com honorários de 5% líquidos sobre o valor recebido pelo Master em 12 processos.
Vorcaro atuava para destravar R$ 8,5 bilhões em precatórios decorrentes do controle de preços do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool, e o banco contratou para as causas o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, pertencente a Camilla.
Nas mensagens a Vorcaro, a advogada comemora o resultado no Supremo: “Boa tarde! Grande vitória hoje para as Usinas na 2ª Turma do STF! Placar 3×2 a favor das Usinas, para não aplicar o Tema 826. É um excelente voto do Min. Nunes Marques fazendo a distinção dos casos em que o título judicial trouxe os critérios da indenização”.
Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques votaram por reconhecer o precatório, e Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos. Dois detalhes saltam aos olhos. Nunes Marques inicialmente se declarou impedido, mas acabou votando, alegando um “equívoco da assessoria do gabinete”. Toffoli, que costumava se posicionar contra esse tipo de ação, dessa vez ficou do lado do Master.
A cada novo arquivo extraído dos celulares, a lista de presença cresce, e alguns nomes já chegam com um valor anotado ao lado. O da turma do KN podia chegar a R$ 427 milhões.
- Credibilidade do Supremo bate no piso
Pesquisa de opinião é termômetro, não laudo. Mas quando o mercúrio despenca dessa forma, dispensa-se o especialista para saber que há febre. Seis em cada dez brasileiros não confiam no Supremo Tribunal Federal, segundo levantamento AtlasIntel/Estadão divulgado na terça-feira (22).
Apenas 34% afirmam confiar na Corte, o menor índice da série histórica iniciada em janeiro de 2023. Quando a pergunta recai sobre o trabalho e os integrantes do tribunal, 61% dizem desconfiar, contra 27,8% que confiam.
O momento da coleta ajuda a entender o resultado. A pesquisa ouviu 1.852 pessoas entre 17 e 21 de setembro, por recrutamento digital, com margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Foi a semana seguinte à sessão em que os ministros discutiram abrir uma investigação contra Alexandre de Moraes por suposta relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso e dono do liquidado Master. A análise acabou adiada por um pedido de vista de Flávio Dino.
Não é para menos. A queda acompanha a enxurrada de revelações extraídas do celular do empresário, apreendido no ano passado, que citam direta ou indiretamente, inclusive por meio de parentes, Moraes, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques, André Mendonça, Gilmar Mendes e Luiz Fux. São seis de dez cadeiras cadeiras. No anedotário que já corre pelo país, Vorcaro, se não comprou a República inteira, teria levado ao menos a metade.
- Lula desengaveta uma palavra esquecida
Algumas palavras saem de moda, outras são tiradas de circulação. No vocabulário de Lula, “corrupção” parecia pertencer ao segundo grupo. O termo não apareceu no discurso de posse, em janeiro de 2023, nem nas falas do presidente na Assembleia Geral da ONU em 2023, 2024 e 2025.
Nesta terça-feira (22), na abertura da Assembleia, a palavra voltou duas vezes, pela primeira vez no prédio da ONU, em Nova York: “Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei”.
A mudança de repertório tem cálculo eleitoral. O tema e a crise no Supremo pesam no desempenho de Lula nas pesquisas de intenção de voto, e a turbulência do tribunal respinga no Planalto por uma razão elementar. Boa parte da Corte chegou lá pelas mãos de Lula e Dilma, e mesmo quem veio de outras nomeações, como Alexandre de Moraes, acabou acomodado no condomínio de poder que hoje governa o país.
O histórico ajuda a entender o desconforto. Lula foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro na Lava Jato, e as sentenças acabaram anuladas pelo STF por questão de competência, sem que houvesse absolvição no mérito. Em território brasileiro, o presidente só se dispôs a tocar no assunto na véspera do 1º de Maio de 2025, num vídeo oficial.
O silêncio de três anos se explica facilmente: para quem carrega essa biografia, falar do tema é como falar de corda em casa de enforcado.
- A fatura que sobrou para o FGC
Em finanças, todo atraso cobra juros. No caso do Master, a demora talvez tenha saído caríssima. A eventual interferência do ministro Alexandre de Moraes em favor de Daniel Vorcaro pode ter contribuído para agravar o rombo deixado pelo banco no sistema financeiro, caso o magistrado tenha retardado medidas que teriam interrompido antes a escalada das dívidas do conglomerado.
Mensagens obtidas e analisadas pela Polícia Federal mostram que, entre outubro e novembro de 2025, semanas antes da liquidação, o banqueiro fez diversos pedidos para que o ministro o ajudasse a conter o avanço das investigações que antecederam sua prisão e o fim do banco. A proximidade entre os dois vinha sendo cultivada pelo menos desde dezembro de 2023, e a PF aponta ao menos oito encontros entre 2024 e 2025.
O Master era um banco pequeno, com apenas 0,57% dos ativos e 0,55% das captações do Sistema Financeiro Nacional. Mesmo assim, sua liquidação, junto com a do Master de Investimento e a do Letsbank, do mesmo grupo, consumiu R$ 40,6 bilhões das reservas do Fundo Garantidor de Créditos, mantido pelas contribuições das próprias instituições financeiras.
Somadas as liquidações posteriores da Will Financeira e do Banco Pleno, que também pertenceram a Vorcaro, o impacto chegou a cerca de R$ 57,4 bilhões, o maior rombo bancário da história do país.
- A última palavra é do eleitor
O Brazil Journal, portal de referência no mundo dos negócios, publicou no último dia 16 um editorial de rara contundência, intitulado “Só a urna salva”. O texto abre com a estátua da Justiça esculpida por Alfredo Ceschiatti diante do Supremo, olhos vendados e espada no colo, como testemunha de uma crise que não se parece com nenhuma outra.
O diagnóstico é duro. Isolados no mundo rarefeito dos gabinetes, carros oficiais e escoltas, os ministros teriam perdido o contato com a realidade e a noção do perigo, enquanto a reputação da Corte virou assunto de todo brasileiro, do motorista de aplicativo ao barbeiro.
O editorial enumera salários ilegais, feudos familiares lucrativos e decisões negociadas, e acusa o tribunal de ter mudado regras em benefício próprio, do quórum para o impeachment de seus ministros à permissão para que parentes monetizem influência.
Um tribunal constitucional se sustenta na confiança do povo, argumenta o texto, e quando ela se esvai o próximo risco é a desobediência civil.
A saída apontada é a única compatível com a democracia. Como o sistema se protege e os Poderes se blindam, cabe à sociedade relegitimar as instituições nas urnas, elegendo um novo Senado capaz de reformar o Judiciário e restabelecer o decoro. O editorial encerra com uma nota de esperança: “A crise é do supremo, mas a sociedade tem o antídoto”.
O raciocínio é certeiro, e a receita também. Em 4 de outubro, contra um tribunal que se imagina acima de todos, o brasileiro terá nas mãos o único instrumento a que nenhum ministro pode pedir vista: o próprio voto.



