Sandices presidenciais

É para ler, reler, ler de novo, compartilhar, reconhecer firma, emoldurar e pendurar na parede o editorial publicado pelo Estadão nesta segunda-feira (21), sob o título “Não deixaremos que Lula reescreva a História”.
O texto parte de uma declaração recente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem a eleição de José Dirceu à Câmara dos Deputados representaria uma “reparação histórica”, e percorre uma sequência de acontecimentos que convém refrescar na memória dos que os viveram — e apresentar aos mais jovens, muitos dos quais não acompanharam aqueles lamentáveis capítulos da vida política brasileira.
Há que se fazer, a propósito, um registro que há algum tempo parece necessário: entre os principais veículos da imprensa brasileira, o Estadão vem se redimindo de uma omissão que marcou boa parte da grande mídia quando o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações de Lula. À época, faltou a um jornal de sua tradição, peso e influência o manifesto rigoroso que a gravidade daquele episódio exigia.
A mesma complacência se repetiria, em diferentes graus, diante de excessos cometidos também pelo STF, muitas vezes tolerados sob o argumento de que seriam necessários para proteger a democracia. Nos últimos tempos, porém, o Estadão tem recuperado com frequência a voz crítica que se espera de um jornal de sua importância — e o editorial aqui citado é um exemplo particularmente eloquente disso.
A viagem pela memória começa com José Dirceu. Ex-ministro-chefe da Casa Civil e um dos homens mais poderosos do primeiro governo Lula, teve o mandato de deputado cassado em 2005 e, anos depois, foi condenado pelo Supremo no processo do mensalão por corrupção ativa. Cumpriu parte da pena e acabou beneficiado pelo indulto natalino previsto em decreto assinado por Dilma Rousseff em 2015, tendo sua punibilidade naquela condenação declarada extinta pelo ministro Luís Roberto Barroso no ano seguinte.
O editorial recorda também a metamorfose do discurso petista sobre o mensalão: quando o escândalo explodiu, Lula falou em pedir desculpas e declarou-se traído; mais tarde, passou a negar a própria existência do esquema e a tratá-lo como uma armação política.
A Lava Jato acrescentaria outro capítulo. Lula foi condenado nos processos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, decisões que passaram pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região; a condenação do tríplex também chegou ao Superior Tribunal de Justiça. Em 2021, porém, o ministro Edson Fachin resolveu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era competente para julgar aquelas ações e anulou os atos decisórios, inclusive as condenações, o que foi referendado pelo plenário da Corte.
Portanto, cabe aqui uma precisão que o tempo e a disputa política frequentemente embaralham: juridicamente, Lula não foi absolvido e nem inocentado pelo STF; suas condenações foram anuladas por um criativo e vergonhoso malabarismo processual. Simples assim.
O Estadão estende essa reconstrução ao impeachment de Dilma Rousseff e à insistência petista em qualificá-lo como “golpe”, além de lembrar a relação historicamente conflituosa do partido com alguns dos grandes marcos institucionais e econômicos da redemocratização.
Além de orientar a bancada do PT a votar contra o texto final da Constituição de 88, Lula mandou o partido se opor também ao Plano Real e à Lei de Responsabilidade Fiscal. É nesse inventário que o jornal sustenta sua crítica à tentativa de transformar antigos condenados em perseguidos e episódios políticos e judiciais complexos em uma narrativa linear de vítimas e algozes.
É justamente nesse ponto que o editorial desfere seu golpe final. Se Lula reivindica uma “reparação histórica”, argumenta o Estadão, seria preciso abrir o livro inteiro — incluindo, nas palavras do jornal, “as culpas que o petismo terceirizou, as vítimas que transformou em algozes e as desculpas que nunca deu”.
O texto encerra de forma contundente, afirmando que Lula cobra reparações enquanto o Brasil ainda espera que ele pague o que deve, e acrescenta: “as urnas estão aí para lhe antecipar o troco”.
Mas a “reparação histórica” de José Dirceu não foi o único disparate do estadista de Garanhuns a provocar reação nos últimos dias. Em comício em Florianópolis, Lula quis saber por que parte do agronegócio não gosta de seu governo. Sugeriu que a resistência poderia decorrer de uma “questão de pele”, por ser nordestino ou pobre, e acrescentou que, considerando o dinheiro destinado pelo governo ao setor, os produtores deveriam “não só votar, mas se ajoelhar” para ele.
A resposta veio rápida — e pesada. O presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette, disse que a realidade seria justamente a oposta: na avaliação dele, seria Lula quem deveria agradecer ao agro pela contribuição do setor à geração de empregos, renda e impostos.
Meneguette classificou a fala como descabida e apontou um cenário de dificuldades que, segundo ele, inclui Plano Safra insuficiente, falta de seguro rural, restrições de crédito e refinanciamento, juros elevados e deterioração fiscal. São avaliações do dirigente rural sobre as causas da situação do setor, mas revelam a distância entre a leitura feita pelo presidente e a de uma parcela importante de suas lideranças.
Pedro Lupion, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, foi ainda mais severo. Chamou a declaração de “cúmulo da prepotência e da arrogância” e devolveu a metáfora presidencial: segundo ele, se o agro está de joelhos, não é diante de Lula, mas diante das dificuldades que atribui à política econômica do governo — juros, crédito rural, seguro, endividamento, custo dos insumos, diesel e situação fiscal.
A senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina também somou-se aos protestos. Disse que liderança exige sensatez, não “bravatas”, e respondeu à imagem escolhida pelo presidente lembrando que, para os brasileiros de fé, ajoelhar-se é gesto reservado a Deus, enquanto os produtores continuarão trabalhando para colocar alimento na mesa do País.
No fim, os dois episódios acabam se encontrando.
Num, Lula reivindica uma “reparação histórica” para José Dirceu e recebe do Estadão uma acachapante recapitulação do passado que pretende reparar. No outro, sugere que o agronegócio deveria se ajoelhar em agradecimento pelo dinheiro que seu governo lhe destina e recebe das lideranças do setor um repúdio igualmente duro — inclusive lembrando-lhe a conta que atribuem à desastrosa política econômica de seu governo.
Há ainda um detalhe elementar nessa cobrança de gratidão: dinheiro público não pertence ao presidente da República. Distribuí-lo como se fosse favor pessoal é fazer cortesia com o chapéu alheio.
Em suma, dois desatinos, duas respostas à altura. Ou, para recorrer à velha sabedoria popular: quem fala o que quer, ouve o que não quer.



