A CPI não é um circo

Por Sergio Etchegoyen*

O circo é onde mais perto se pode chegar do reino da fantasia.

É lá que os abençoados com a vocação de espalhar felicidade oferecem seus talentos para esconder as asperezas cotidianas sob o manto mágico da alegria.

Em torno de um picadeiro olhares alegres e sofridos, de todas as idades, se iluminam como submetidos a uma hipnose coletiva, entregues ao encanto de palhaços, malabaristas, domadores, homens-bala, equilibristas, trapezistas e outros em meio a risos, aplausos, suspense e pipoca.

Erram redondamente os que comparam a CPI a um circo.

Fiscalizar o Executivo e investigar possíveis desvios é, sem discussão, dever do Legislativo, assim como nenhum agente público, de qualquer nível, está isento de ter seus atos e decisões examinados.

Prestar contas é inerente à atividade pública, é obrigação do servidor.

A CPI é um instrumento legítimo da oposição na disputa política, mas, lamentavelmente, a CPI que encerra seu trabalho depois de 6 meses deixa um dos mais lamentáveis legados da atuação parlamentar da crônica da República.

Não, não tivemos um circo.

O que se viu foi mais como as conhecidas reprises vespertinas de antigas novelas de televisão com uma estranha inversão de papéis que alçou os vilões de ontem a heróis de hoje, com o entusiasmado apoio, e até torcida, da mesma mídia que outro dia sapateava sobre a reputação de senador, mostrando notas fiscais de venda de gado que não existia comprado por abatedouros cujos endereços levavam a modestas residências de bairros pobres, como demonstrou outra CPI que expôs os critérios éticos do relator da que se encerra, enquanto o que a preside, junto com sua família, responde a graves acusações.

O que se testemunhou foi uma desconcertante demonstração de maus modos, o constrangimento moral de depoentes como perversa técnica de interrogatório, vis ataques pessoais, chiliques descabidos, cenas de boçalidade e grosseria explícitas, a intimidação de testemunhas chamadas a depor, a arrogância de repetidos “será como eu quero” ou “porque eu quero”, senadores negando com fingida compenetração opiniões e recomendações anteriormente defendidas e o repugnante e imperdoável tratamento dedicado a senhoras convocadas para depor.

A tudo se assistiu com a solene omissão dos sempre atentos grupos de defesa da mulher ou de associações de advogados.

As transmissões ao vivo das sessões da CPI iluminaram com tal intensidade o que temos de mais rasteiro na prática política brasileira que nem mesmo este meio ano de superexposição foi capaz de fazer com que a aprovação pública do Senado Federal chegasse sequer a magros 15% nas pesquisas.

Eventuais culpados serão os maiores beneficiados pelo festival de incoerências, descalabros, parcialidade, desfaçatez, falta de respeito e muito mais conduzido pelos próprios encarregados de investigar.

A sociedade, contribuintes e eleitores, perdeu.

A democracia sofreu ao ver enfraquecido o Parlamento pelos seus próprios vícios.

Ganhou a indigência moral, mas como afirmou Margareth Tatcher, “não se faz eleição para colocar os melhores no poder, mas para impedir que os piores lá permaneçam.”

Outubro do ano que vem nos trará mais uma oportunidade para corrigir escolhas que se comprovaram equivocadas.

*Sérgio Westphalen Etchegoyen é General de Exército da reserva do Exército Brasileiro e foi ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República no Governo Michel Temer.

(A publicação deste artigo foi autorizada pelo autor e atendeu a convite do titular do blog).

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Um Comentário

  1. Há muito tempo esta classe politica leva a nossa pátria ao retrocesso. Com estes politicas a palavra democracia se dissolve e a justiça sempre foi manipulada pelos corruptos.

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