Na contramão do consenso fabricado
Num país onde boa parte da chamada grande imprensa abandonou a independência editorial para vestir camiseta partidária — algumas inclusive com estampa personalizada — é preciso reconhecer quando um veículo insiste em se manter de pé no meio do vendaval. É o caso do Estadão.
Em tempos de mídia domesticada, o jornal da família Mesquita tem sido uma exceção saudável, rara, e por isso mesmo tão relevante. Relevante não só por aquilo que publica, mas principalmente por aquilo que não se permite calar.
Enquanto boa parte dos jornais e emissoras se acotovelava no palanque do terceiro mandato petista — ora com entusiasmo, ora com conveniente silêncio — o Estadão, mesmo com sua natural inclinação institucional, manteve-se fiel à crítica, à prudência fiscal e ao interesse público acima das afinidades de ocasião.
Tem apontado, com rigor, os desacertos do governo Lula, suas recaídas populistas, sua política econômica desconexa e, sobretudo, o desprezo reiterado pela estabilidade da moeda.
Prova disso é o editorial publicado ontem, 14 de abril, em que o jornal expõe com clareza desconcertante o verdadeiro colapso silencioso que se abate sobre a economia brasileira — e que já começa a reverberar nas pesquisas de opinião.
O texto parte de um dado inegável: a economia voltou a liderar o ranking das maiores preocupações do brasileiro, empatando com a saúde e deixando a violência e a corrupção para trás. O que isso nos diz? Que a inflação voltou ao prato do trabalhador — e voltou faminta.
Não adianta o governo exibir números como o PIB de 3,4% em 2024 ou a taxa de desemprego “historicamente baixa”.
A realidade concreta das famílias brasileiras é outra. A cesta básica, por exemplo, consome 60% do salário mínimo em São Paulo. Os juros do cartão de crédito superam 900% ao ano em algumas instituições. A inflação oficial, no primeiro bimestre, já avançou quase metade da meta estipulada para o ano todo.
E a Selic — que Lula tanto criticava quando fora do poder — está estacionada nos 14,25%. A última vez que isso aconteceu, Dilma Rousseff ainda ocupava a cadeira da qual seria despejada pouco depois.
Não se trata de um colapso estatístico, mas sensorial. As pessoas sentem, no caixa do supermercado e na fatura do cartão, o que os indicadores tentam disfarçar. E sentem também a ausência de direção.
O editorial do Estadão é incisivo ao mostrar que essa percepção não é mais apenas um fenômeno das elites financeiras ou do empresariado, mas do povo comum.
A pesquisa Genial/Quaest revela que 67% dos brasileiros estão frustrados com o governo Lula. No Nordeste — tradicional reduto eleitoral do petismo — mais da metade (55%) está decepcionada.
Eis aí a síntese: inflação, juros estratosféricos, carestia, estagnação, e um governo que responde a tudo isso com bravatas, retórica e marketing. É como tentar apagar incêndio com discurso. A mistura de inflação com juros altos — relembra o editorial — é explosiva. E o governo insiste em brincar com fósforos.
O mais espantoso, no entanto, não é o desastre em si, mas a negação dele.
Lula e seu entorno preferem atacar o Banco Central, demonizar o mercado ou vender ilusões de um “novo PAC” que não sai do PowerPoint. Como escreveu o Estadão, o governo parece perdido. E pior: parece satisfeito com esse extravio.
Nesse cenário, a lucidez editorial do Estadão brilha como farol em mar encoberto. Não por acertar sempre, mas por não desistir de enxergar.
E por nos lembrar que jornalismo, quando exercido com responsabilidade e coragem, ainda é um antídoto contra governos que não sabem ouvir — e uma bússola para sociedades que não podem mais errar o caminho.
1 comentário
Olavo Arsenio Fank · 18/04/2025 às 13:49
Texto lúcido e pontual. Parabéns pela síntese e acerto nos pontos cruciais.