Opinião

Fatos, fotos e vídeos. O que mais precisa?

Com a expressão serena de quem nunca viu mais gordo, autoridades da República juram, em nota ou em entrevista, que mal conhecem Daniel Vorcaro, que jamais trocaram uma palavra, que nunca cruzaram o seu caminho e que, se por acaso cruzaram, foi encontro banal, protocolar, sem intimidade nem consequência.

Dizem isso sem corar, sem gaguejar, com a firmeza de quem nunca precisou prestar contas a um celular apreendido.

Em 1770, num tribunal de Boston, o advogado John Adams lembrou aos jurados que os fatos são coisas teimosas e que nenhum desejo, inclinação ou paixão consegue alterar o estado das provas.

A frase tem pai anterior: o francês Lesage a escreveu em Gil Blas, vertido ao inglês por Tobias Smollett. Outro que deu sua contribuição foi Ronald Reagan: ao citá-la numa convenção, em 1988, tropeçou na língua e chamou-os de estúpidos antes de se corrigir entre risos.

O lapso ganhou vida própria, e faz certo sentido: estúpido é quem aposta contra eles. Aldous Huxley já havia despachado o assunto em 1927: os fatos não deixam de existir por serem ignorados.

A sabedoria popular resume assim: “A verdade é que a realidade é teimosa, e os fatos têm o mau hábito de não desaparecerem quando nós gostaríamos.”

A prova mais fresca é o procurador-geral da República, Paulo Gonet, que classificou a relação com o ex-banqueiro como “brevíssima e banal” três dias antes de a foto vir a público.

Em sessão do STF, já dissera que as mensagens do celular de Vorcaro que o citam não têm relevância jurídica. Então a Polícia Federal encontrou nesse mesmo aparelho uma imagem de Londres, abril de 2024: Gonet com um charuto na mão, uísque sobre a mesa, o anfitrião ao lado. O advogado Ciro Soares a encaminhou com a legenda “PG me mandou”.

A PGR confirma a autenticidade e lembra que o evento reunia várias autoridades. Mensagens divulgadas pelo ministro André Mendonça mostram Gonet torcendo para que o encontro seguinte, depois cancelado, tivesse “charuto e Macallan”. A banalidade, como se vê, tinha safra e rótulo.

O ministro Alexandre de Moraes preferiu a via da nota oficial. Em abril, o STF informou que ele “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”.

Sentença sem janela para dúvidas, até que uma gravação de 22 de agosto de 2025, no Aeroporto Santos Dumont, mostrou o ministro e a esposa, Viviane Barci, descendo de um jatinho do ex-banqueiro. Recebidos na pista com todas as honras, ainda viram um segurança carregar as duas malas do casal. Nota de esclarecimento não acompanha bagagem.

O relatório da PF ajuda a entender o cenário. Aponta um contrato de R$ 50 milhões, datado de 12 de maio de 2025, entre o escritório de Viviane e uma holding de Vorcaro, com R$ 40 milhões pagos em cotas de um Legacy 650 e de um helicóptero, e o restante em reembolso de despesas de voo.

Em 16 de julho de 2025, numa conversa com o sócio da Prime, empresa de compartilhamento de aeronaves, Vorcaro cobra: “Eles não estão usando?” A resposta vem sem rodeios: “Liberado desde quando me pediu, já a usar sim.” E, adiante: “Já usaram aviões e helicópteros.”

Viviane, por sua vez, diz que estavam “gostando muito”. Em agosto, quando o próprio Vorcaro queria o jato e foi avisado de que a aeronave já estava reservada para o escritório da advogada, a ordem foi de dono zeloso: “Não deixe de atender Barci”.

Ah, os fatos, e agora também as fotos e vídeos, esses teimosos que insistem em contrariar as versões…

Screenshot

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo