Opinião

O pior ainda está por vir?

Setembro de 2027 já tem data marcada no calendário do poder brasileiro: é quando Alexandre de Moraes assume a presidência do Supremo Tribunal Federal. Atual vice-presidente da Corte, ele é o nome natural para suceder Edson Fachin, seguindo a tradição do tribunal de promover ao comando quem já ocupa esse posto.

A eleição oficial ainda vai acontecer, mas isso é pro forma — cerimônia protocolar para chancelar o que já está resolvido.

Moraes vai presidir o STF, e o mandato seguirá até setembro de 2029.

Essa expectativa, digamos, sombria, ganhou peso simbólico numa terça-feira recente, quando o ministro autorizou busca e apreensão contra uma fonte que teria fornecido a um jornalista informações sobre o uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão pela família de Flávio Dino.

Não é um raio em céu azul. É apenas o mais novo capítulo de uma coleção que já é longa.

Em janeiro, ainda na presidência interina, Moraes abriu de ofício um inquérito para apurar suposta violação de sigilo fiscal de ministros da Corte — na prática, uma investigação em causa própria, movida depois que vieram à tona reportagens sobre o contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci.

Sete anos antes, em 2019, já havia determinado que a revista Crusoé e o site O Antagonista tirassem do ar matéria que ligava o então presidente do STF, Dias Toffoli, à Lava Jato.

Na presidência do TSE, em 2022, mandou remover conteúdos de veículos como O Antagonista, Jovem Pan e Gazeta do Povo.

Investigador, acusador e julgador: os ministros do Supremo colecionam papéis que a Constituição jamais imaginou reunidos numa única toga.

O pretexto, esse sim, é o que muda com a estação. Ontem era salvar a democracia — a narrativa farsesca da suposta tentativa de golpe que encheu as celas de réus inocentes. Hoje é o crime organizado, ameaça igualmente existencial, segundo Moraes e seu colega Dino, a ponto de justificar a ressurreição de uma ideia que o próprio STF havia enterrado em 2009: a exigência de diploma para o exercício do jornalismo.

Naquela época, entendeu-se que essa cobrança era resquício da ditadura militar, uma tutela inconstitucional sobre a liberdade de expressão. Agora, os mesmos ministros que se dizem incomodados por essa ameaça são os que se sentem expostos pela imprensa que noticia seus próprios desvios.

A coincidência é reveladora demais para ser coincidência.

O inquérito das fake news segue aberto há mais de sete anos, sem contorno definido, disponível como chave-mestra sempre que é preciso abrir a porta de um crítico inconveniente.

É o instrumento perfeito: sigiloso, elástico, sem prazo de validade.

Interpretar a Constituição deixou de ser exercício jurídico para virar liberdade criativa, ao sabor da conveniência do momento.

E o que pode vir daqui em diante não promete alívio. É prenúncio de tempestade perfeita.

Se Lula for reeleito, se Davi Alcolumbre seguir no comando do Senado e se Hugo Mota — que já declarou apoio ao presidente — permanecer à frente da Câmara, o país terá fechado o círculo: Executivo, Legislativo e a presidência do STF nas mãos de um mesmo condomínio de interesses, movido menos por convicção do que por acerto de contas mútuo.

Rusgas pontuais entre os sócios não mudam a lógica do consórcio. No fim, todos se entendem para seguir mandando.

Há uma lei, batizada em homenagem ao engenheiro americano Edward Murphy, que virou sinônimo popular de pessimismo aplicado ao cotidiano.

Em sua formulação original, ela diz apenas: se algo pode dar errado, vai dar errado.

Ao longo das décadas, ganhou uma legião de corolários bem-humorados — máximas irônicas que apostam no azar como regra, não como exceção — e um deles resume com precisão cirúrgica o momento institucional brasileiro e o futuro inquietante que se desenha: nada é tão ruim que não possa piorar.

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